31 out - 2026 • 19:00 > 19 dez - 2026 • 21:00
31 out - 2026 • 19:00 > 19 dez - 2026 • 21:00
EMENTA
Sua ementa
articula a distinção entre agressividade, transgressão fantasmática, acting-out
e passagem ao ato (passage à l'acte), oferecendo ferramentas conceituais
e técnicas para que o clínico identifique a iminência do colapso da contenção
simbólica e adote um manejo transferencial que neutralize o empuxo ao ato
destrutivo. Os objetivos centrais consistem em: delimitar as fronteiras
conceituais entre o paciente sem risco criminológico e o paciente em risco
iminente de descompensação violenta; mapear os pródromos subjetivos da passagem
ao ato na neurose grave, na psicose e na perversão; e circunscrever as
diretrizes de manejo da transferência e da palavra para conter a
desestabilização do laço e evitar o desencadeamento de atos violentos.
JUSTIFICATIVA
O
curso Psicanálise e Criminologia: Introdução ao Diagnóstico Diferencial do
Risco Criminológico na Clínica Psicanalítica se fundamenta na necessidade
de compreender os modos pelos quais a violência emerge em sujeitos inseridos em
uma sociedade marcada pelo fetichismo da mercadoria, pelo irracionalismo
ideológico e pela manipulação sistemática do mercado. Em um contexto em que os
laços sociais são frequentemente atravessados por dinâmicas de consumo e
espetacularização, torna-se essencial investigar como tais condições produzem
subjetividades vulneráveis ao colapso da contenção simbólica e à passagem ao
ato. A psicanálise, ao articular escuta clínica e análise estrutural, oferece
ferramentas para distinguir entre manifestações de agressividade simbólica e
riscos efetivos de desencadeamento violento. A criminologia, por sua vez,
permite situar tais fenômenos no campo das práticas sociais e institucionais. A
integração entre ambas possibilita não apenas o diagnóstico diferencial do
risco criminológico, mas também a construção de estratégias de prevenção que
preservem o sujeito em sua singularidade, evitando que a lógica punitiva e
mercadológica reduza a violência a mero objeto de gestão. Assim, o curso se
justifica pela urgência de formar clínicos capazes de reconhecer os pródromos
subjetivos da violência e de manejar a transferência em cenários de risco,
contribuindo para a contenção ética da agressividade e para a crítica às formas
de irracionalismo e manipulação que permeiam uma sociedade do capital.
PROGRAMA
A
estrutura programática organiza-se de forma estritamente contínua ao longo dos
quatro encontros quinzenais.
Aula
1: Agressividade, Culpa e Transgressão — Os Fundamentos do Paciente sem Risco
Criminológico,
debruça-se sobre a constituição do sujeito e as manifestações de hostilidade
que não configuram risco de letalidade ou lesão real contra outrem. Aborda-se a
teorização freudiana sobre o crime e a culpa, na qual o sintoma transgressor
visa comumente convocar a autoridade ou produzir uma punição externa capaz de
aliviar a tirania de um supereu severo. Nesse encontro, investiga-se como a
agressividade imaginária descrita por Lacan no estádio do espelho difere do
ódio aniquilador, demonstrando que o paciente neurótico preserva o estatuto do
semelhante enquanto sujeito barrado, mantendo a agressividade contida no campo
do discurso, do recalque e da rivalidade narcísica sem risco de fratura do
pacto social.
Aula 2: A Topologia do Ato — "Acting-out", Passagem ao Ato e a Emergência da Violência, dedica-se a estabelecer o ponto nodal da distinção clínica entre a encenação sintomática e o desenlace violento a partir das lições do Seminário 10 de Jacques Lacan. Enquanto o acting-out permanece como um apelo transferencial dirigido ao Outro — uma mensagem em cena que solicita decifração e sustenta a esperança de simbolização, preservando a vida —, a passagem ao ato (passage à l'acte) configura uma ruptura radical: o sujeito é ejetado da moldura fantasmática, desfaz o laço com o Outro e se confunde com o dejeto (l'objet a), caindo no real sem mediação da linguagem. O objetivo desta aula é capacitar o analista a reconhecer a subida vertiginosa da angústia sem borda significante e a rigidez corporal que anunciam a iminência da passagem ao ato destrutiva.
Aula 3: Estruturas Clínicas e o Risco de Desencadeamento da Violência, examina as conjunturas em que a violência pode ser desfechada conforme os diferentes arranjos psíquicos. Investiga-se a paranoia e o crime passional ou persecutório, no qual o semelhante não é mais experienciado sob a ambivalência neurótica, mas se transforma no perseguidor absoluto que usurpa o gozo do sujeito, legitimando o assassinato como autodefesa imaginária legítima. Em contraste com a certeza delirante da psicose, analisa-se também a perversão sob o mecanismo do desmentido (Verleugnung), no qual a instrumentalização calculada do outro para extração de gozo opera sem apelo à culpa, configurando um risco frio e predador que demanda escuta cautelosa para não validar a sedução perversa no setting.
Aula 4: A Condução do Tratamento Clínico e a Prevenção da Violência, sistematiza os princípios da direção da cura voltados especificamente para desativar a espiral da violência no consultório ou na instituição. O foco recai sobre a modulação da transferência: diante de sujeitos em risco de passagem ao ato, a postura analítica do silêncio enigmático, da interpretação da fantasia ou da frustração sistemática pode ser letal, pois é amiúde vivenciada pelo paciente como um gozo invasivo do Outro, precipitando a agressão como tentativa desesperada de separação. Discutem-se a função do analista como "secretário do alienado", a intervenção pela via do corte suave, a sustentação da palavra pacificadora, o empréstimo de um significante que bordeje o vazio da angústia e o uso de recursos de rede (interconsulta psiquiátrica cuidadosa, contenção institucional ou mediação familiar) sem trair a ética da singularidade. Trabalha-se, por fim, a construção de um roteiro ético para a avaliação qualitativa do risco criminológico, contrapondo a lógica do acolhimento da angústia e da estabilização simbólica aos protocolos estritamente punitivos.
Aula 5: Análise psicanalítica de um filme:
“A Sombra de uma Dúvida” (Shadow of a Doubt), dirigido por Alfred Hitchcock, é:
HITCHCOCK, Alfred. A sombra de uma dúvida. Estados Unidos: Universal Pictures,
1943.
METODOLOGIA
A metodologia
do projeto articula a exposição teórica rigorosa dos textos de Freud e
Lacan à discussão clínica de vinhetas e fragmentos de casos clássicos da
psicanálise (como o caso Aimée e o caso das irmãs Papin) e da jurisprudência,
permitindo aos alunos visualizar a transição sutil entre o discurso queixoso e
a iminência da ação.
ATENÇÃO:
As
aulas virtuais serão realizadas quinzenalmente, aos sábados, das 19h às 21h,
por meio do ambiente Google Meet do Canal da RET.
Os(as)
participantes inscritos receberão Certificado de Participação correspondente a
14 horas-aula, com chancela da RET (Rede de Estudos do Trabalho – www.estudosdotrabalho.net
Será
disponibilizado aos participantes o link para download do filme que será objeto
de análise.
No
grupo de WhatsApp do curso serão compartilhados outros materiais
complementares, essenciais para o aprofundamento dos conhecimentos dos(as)
alunos(as).
BIBLIOGRAFIA
FREUD, Sigmund. Alguns tipos de caráter encontrados no trabalho analítico (1916). In: FREUD, Sigmund. Introdução ao narcisismo, ensaios de metapsicologia e outros textos (1914-1916). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. p. 343-377. (Obras completas, v. 12).
FREUD,
Sigmund. O eu e o id (1923). In: FREUD, Sigmund. O eu e o id,
"autobiografia" e outros textos (1923-1925). Tradução de Paulo
César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. p. 13-74. (Obras
completas, v. 16).
LACAN,
Jacques. Introdução teórica às funções da psicanálise em criminologia (1950).
In: LACAN, Jacques. Escritos. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro:
Jorge Zahar Ed., 1998. p. 127-151. (Campo Freudiano no Brasil).
LACAN,
Jacques. O seminário, livro 10: a angústia (1962-1963). Texto
estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de
Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005. 368 p. (Campo Freudiano no Brasil).
LACAN,
Jacques. O seminário, livro 3: as psicoses (1955-1956). Texto
estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradução de Aloísio Menezes. Rio de
Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985. 366 p. (Campo Freudiano no Brasil).
WINNICOTT,
Donald Woods. A tendência antissocial (1956). In: WINNICOTT, Donald Woods.
Da pediatria à psicanálise: obras escolhidas. Tradução de Davy Bogomoletz.
Rio de Janeiro: Imago, 2000. p. 406-416.
Cronograma das Aulas
Aula 1 –
dia 31 de outubro de 2026
Aula 2 –
dia 14 de novembro de 2026
Aula 3 –
dia 28 de novembro de 2026
Aula 4 –
dia 12 de dezembro de 2026
Aula 5 –
dia 19 de dezembro de 2026
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Giovanni Alves
Giovanni Alves é professor de sociologia da UNESP, coordenador da Rede de Estudos do Trabalho (RET) e do Projeto Tela Crítica (www.telacritica.net) e Projeto CineTrabalho (www.projetocinetrabalho.net).
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