Uma boa comédia esportiva funciona quando o placar importa menos do que aquilo que acontece ao redor do campo. U.S. Palmese entende essa regra e encontra sua força em um paradoxo: para salvar um pequeno time da Calábria, uma cidade inteira decide comprar um craque em queda.
No centro da história está Don Vincenzo, agricultor aposentado vivido por Rocco Papaleo. Ele tem uma ideia absurda e a leva a sério: reunir fundos para trazer a Palmi Etienne Morville, jogador francês de grande talento, afastado do futebol profissional por causa de seu temperamento indomável. Morville aceita porque precisa de uma saída. Chega à Calábria com a expressão de quem enxerga aquela transferência como castigo. Encontra, porém, um lugar que o obriga a medir-se com uma lealdade mais áspera, menos negociável.
O filme parte de uma estrutura conhecida: um campeão arrogante, uma comunidade teimosa, a chance de recomeçar. Os Manetti Bros., no entanto, dão a esse desenho uma paisagem afetiva muito precisa. Palmi não é apenas cenário. É matéria viva da narrativa. É a cidade da mãe dos diretores, o lugar dos verões de infância, o ponto de onde nasce também a memória de um torcedor que sonhava comprar Maradona com o dinheiro recolhido entre os moradores.
A escolha de U.S. Palmese como oitavo encontro da segunda edição do Panorama IICinemaRio confirma a atenção dedicada a um cinema italiano capaz de circular entre autoria e público, entre memória local e imaginação popular. A direção dos Manetti aposta no ritmo, em personagens de contornos nítidos e em um tom assumidamente fabular. O filme nem sempre escapa da simplificação, mas possui uma qualidade rara: acredita de verdade no mundo que coloca em cena. Por isso convence mais do que muitas comédias fabricadas a partir de fórmulas seguras.