Em 1900, no Friuli, uma criança morta antes do batismo não tinha direito a um nome nem a uma sepultura em terra consagrada. Sua alma ia para o limbo, uma zona cinzenta do além reservada àquilo que não encontrava lugar na ordem da salvação. Para Agata, mãe que acaba de perder a filha no parto, isso não é teologia. É uma condenação.
Dizem a ela que existe um santuário entre as montanhas, além da fronteira, onde os recém-nascidos que nunca chegaram a viver recuperam o fôlego pelo tempo de um batismo. Um único respiro, e a alma recebe seu nome. Agata envolve o corpo da menina e parte em viagem. Atravessa os pântanos baixos da fronteira friulana e os bosques onde os caminhos não aparecem em mapa algum. A névoa que ao amanhecer repousa sobre a água parada lhe entra nos ossos. Ao seu lado surge Lince, criatura esquiva que vive à margem, entre contrabandistas e gente que aprendeu a não ser encontrada. Entre os dois não nasce uma aliança. Nasce algo mais frágil e mais resistente, que o filme deixa sem nome porque não precisa dele.
Piccolo Corpo, sexto encontro da segunda edição do Panorama IICinemaRio, vale sobretudo pelo que retém. A dor de Agata nunca é declarada. Está nas costas curvadas e no modo como ela aperta o embrulho contra o peito. Nos momentos em que para e olha o céu sem dizer nada. Laura Samani trabalha pela subtração: poucos diálogos, longos silêncios, gestos observados sem explicação. Seus enquadramentos mostram o tamanho da montanha diante de quem a sobe. A fé de Agata não é discutida nem posta em dúvida. Simplesmente existe, como a chuva, como o frio. E, quando o filme termina, percebe-se que se prendeu a respiração do começo ao fim.