Há algo de extraordinariamente humano na forma como Alain Ughetto conta a história de sua família em Proibido para Cães e Italianos. Não apenas pelo tema – a imigração italiana no início do século XX, marcada por esforços, sonhos e humilhações – mas pelo gesto em si com o qual escolhe narrá-la: uma animação artesanal, moldada com as mãos, construída com materiais simples, quase humildes, como as vidas que evoca. O barro, a madeira, o carvão tornam-se personagens, paisagens, emoções.
Através de um diálogo imaginário com o pai falecido, o cineasta entrelaça uma narrativa que é ao mesmo tempo íntima e coletiva. A memória familiar se transforma em memória histórica, e o passado, longe de ser um refúgio nostálgico, torna-se uma matéria viva, interrogativa. Trata-se de um cinema que não grita, mas escuta, que não ilustra, mas evoca. Cada gesto narrativo é medido, respeitoso, animado por uma ternura que nunca busca complacência.
E talvez seja justamente essa delicadeza o segredo mais profundo do filme. Em um panorama muitas vezes dominado pela urgência do sensacionalismo, Proibido para Cães e Italianos escolhe um tom suave e nos lembra que é possível emocionar sem elevar a voz, indignar-se sem perder a graça. A ternura não apaga a injustiça, e a ironia – sempre leve, nunca cínica – ajuda a proteger a memória do esquecimento.
Apresentado no Panorama IICinemaRio, o filme se insere com naturalidade entre as obras capazes de unir forma e substância, gesto poético e olhar ético. Ughetto, com rara sensibilidade, consegue dar forma a um tempo que já não existe – mas que ainda nos habita. E é nessa matéria frágil e profunda que seu cinema encontra toda a sua força.
Aviso: O acesso à sala só será permitido até 15 minutos após o início do evento.