Em um tempo em que a dúvida se transforma em identidade e a suspeita passa a fazer parte da linguagem cotidiana, Il Complottista, de Valerio Ferrara, se impõe como uma comédia lúcida, capaz de observar o presente sem se aprisionar em teses nem abrir mão do prazer da narrativa. É com o primeiro longa-metragem de Ferrara que se abre a segunda edição do Panorama IICinemaRio, inaugurada sob um olhar agudo, irônico e profundamente contemporâneo.
Apresentado em 2024 na Festa del Cinema di Roma, o filme se passa em um bairro popular da capital italiana e gira em torno de um barbeiro mergulhado em teorias da conspiração, figura ao mesmo tempo cômica e inquietante de um mal estar cada vez mais disseminado. Ao seu redor, toma forma um microcosmo atravessado por frustrações, medos e uma necessidade visceral de pertencimento, no qual a fronteira entre paranoia individual e histeria coletiva se torna progressivamente mais tênue.
Ferrara parte de um tema mais atual do que nunca, o fascínio por verdades alternativas, códigos ocultos e inimigos invisíveis, para construir uma narrativa móvel, amarga e surpreendentemente vital. Il Complottista não se limita a encenar um fenômeno contemporâneo: o filme alcança sua raiz humana, esse desejo de ordem, reconhecimento e sentido que tantas vezes se esconde por trás de toda construção obsessiva da suspeita.
O resultado é um filme brilhante e inquieto, leve apenas na aparência, que faz da ironia um instrumento de precisão. Surge daí uma comédia que diverte, mas, sobretudo, observa com rara lucidez algumas das neuroses mais reconhecíveis do nosso tempo.