Anos 1970. Uma casa nos arredores de Roma. Uma Itália atravessada por conflitos políticos e transformações íntimas. La dentro, duas pessoas procuram em Proust uma saída. À la Recherche ocupa esse espaço suspenso, onde o mundo quase não entra, reduzido a um ruído distante atrás das janelas.
Ariane é uma aristocrata francesa e atriz. Pietro, um roteirista italiano insatisfeito, ligado a um cinema considerado menor. Os dois atravessam um período de imobilidade. Ela o contrata para escreverem juntos um roteiro inspirado em Em Busca do Tempo Perdido, o romance monumental de Marcel Proust. O diretor imaginado para o projeto é Luchino Visconti. Basta o nome para conferir à empreitada uma grandeza quase dolorosa.
O trabalho a quatro mãos logo se transforma em um confronto mais profundo. Ariane e Pietro discutem literatura, cinema, política e sexo. Cada frase revela uma distância. Cada cena escrita os obriga a encarar algo que, em suas próprias vidas, ainda não encontrou forma. Proust deixa de ser apenas o autor a ser adaptado. Torna-se uma terceira presença na sala, um fantasma que os força a voltar aos desejos, às oportunidades perdidas e à memória que trai.
No nono encontro da segunda edição do Panorama IICinemaRio, À la Recherche apresenta um filme contido, quase de câmara, sustentado pela tensão reprimida entre os personagens. Giulio Base evita qualquer abertura espetacular. Prefere o confinamento, o diálogo e o desgaste lento de duas inteligências obrigadas a conviver.
O melhor do filme está nos vazios: a pausa depois de uma frase, o silêncio que pesa mais do que uma citação, o instante em que a cultura já não protege ninguém. Uma obra irregular, mas coerente em seu desejo de filmar o pensamento como forma de combate.