A Mata Atlântica resiste em menos de um quarto do seu chão original, sufocada pelo avanço do cimento e pela destruição. No Museu das Culturas Indígenas, no entanto, a fauna ameaçada e os espíritos do bioma ganharam corpo, cor e voz pelas mãos e pelo pensamento de artistas originários. No dia 1º de outubro de 2026, a poucos dias do encerramento oficial da exposição “Mymba’i - pedindo licença aos espíritos, dialogando com a Mata Atlântica”, a artista visual e liderança Pataxó Tamikuã Txihi conduz a última atividade de ativação dessa jornada.
Longe de ser uma despedida formal, o encontro é uma roda aberta de escuta, atravessamentos e autoafirmação política. Tamikuã convoca o público para um diálogo direto sobre as poéticas visuais ecossustentáveis, o uso do papelão recortado como suporte e a dor da extinção dos animais que habitam a floresta. As obras produzidas coletivamente por artistas dos povos Guarani Nhandewa, Kaingang, Guarani Mbya e Tupi Guarani Nhandewa provam que desenhar e pintar o bicho-fauna não é mero adorno: é ato de defesa do território, denúncia contra a violência humana e fortalecimento de laços comunitários.
Com o encerramento da exposição marcado para o dia 4 de outubro, a atividade do dia 1º é a oportunidade final de vivenciar este espaço de acolhimento e alinhar a sua própria voz à defesa da biodiversidade. Venha escutar quem carrega a força da onça e usa a arte como escudo para manter a floresta de pé.
Sobre Tamikuã Txihi
Mulher indígena do povo Pataxó, da Terra Indígena Caramuru-Paraguassu (Pau Brasil – BA); atualmente, vive com o povo Guarani Mbya, na Tekoa Itakupe, no Território Indígena do Jaraguá (São Paulo – SP), sendo uma das lideranças. Iniciadora do projeto cultural de memória viva e recuperação da Mata Atlântica “Toka da Onça oka”, recuperando conhecimentos, técnicas de construção e materiais de seus ancestrais. É multi-artista (artista visual e audiovisual, ceramista, escultora, performer, poeta), curadora, construtora na arquitetura indígena, ativista, guardiã da Mãe Terra e irmã Natureza, tendo a onça como símbolo de inspiração, luta e resistência, representando força, sabedoria e agilidade. Autodidata, aprendeu a praticar e produzir visões próprias no manejo das cores, formas e desenhos; também é graduada em Serviço Social pela Faculdade de São Paulo (FASP). Já teve obras expostas na Pinacoteca e Galeria Carmo Johnson Projects (São Paulo), Caixa Cultural (Brasília) e Tufts University Art Galleries (Boston); foi indicada ao Prêmio PIPA (2022); produziu a exposição “Mymba’i – pedindo licença aos espíritos, dialogando com a Mata Atlântica” e é uma das curadoras da exposição coletiva “Hendu Porã’rã – escutar com o corpo”, no Museu das Culturas Indígenas. Integrante do movimento e organização social Feminismo Comunitário de Abya Yala Tecido Pindorama Brasil, do Conselho Deliberativo do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC-USP) e do Conselho Indígena Aty Mirim, instância em que se constroem mecanismos de escuta, consulta e formulação da agenda propositiva de trabalho do MCI, comprometida com os direitos dos povos indígenas. Tem a arte como um dos instrumentos de luta e defesa dos corpos e territórios.