Suíte Cândido Portinari
Leandro Braga, piano e composições
comemorando 70 anos
Hugo Pilger, violoncelo
Durante o ano de 2021 me propus à tarefa de compor uma música por dia, já que a pandemia limitou nossas vidas. A cada dia sentava ao piano e procurava uma inspiração que me guiasse, um nome, uma situação, e muitas homenagens.
Assim, surgiu o ideia de louvar nosso mestre maior, Candido Portinari, e não poderia ser com uma única peça, mas com várias. E decidi fazer essa homenagem através de músicas que suas obras evocam, com tanta originalidade e tanta expressividade.
A escolha das obras, visto a enormidade da criação do pintor, foi estabelecida com base nas emoções que me causavam, sempre intensas. Sua ordenação seguiu a um critério cênico, onde eu me permitia “rever” as cenas e movimentos anteriores à obra, e “prever” o futuro daqueles seres das telas. Portinari é um pintor do movimento, e minhas músicas a ele dedicadas buscam esse movimento a todo custo.
I - Meninos Brincando
O elemento condutor foi o movimento contínuo, a alegria, o desafio. Mesmo com elementos contrastantes, busquei nunca abandonar a ação. O ostinato de piano e violoncelo, a vivacidade melódica e o desafio são constantes. O piano e o violoncelo se provocam e disputam o tempo todo.
II - Criança Morta
Da séria Retirantes, fala por si. Da derrota, da constância da dor e da morte.
A música retrata a desesperança com uma constância do acompanhamento pianístico feito por arpejos. A constância do abandono e da dor.
III - Guerra e Paz
O grandioso painel instalado na sede da Organização das Nações Unidas, em Nova Iorque, obra monumental de Portinari, é uma avalanche de material extremamente denso para um compositor. Em termos macro, o uso do instável compasso ternário na Guerra estimula a imaginação dos horrores, e a melodia agitada e fugidia procura imitar a terrível instabilidade da guerra. A Paz procura um andamento e um compasso mais serenos, mas nunca apaziguados. A paz é carregada de instabilidade, de susto e medo.
IV - Cangaceiro
A rudeza da caatinga, a reflexão limitada do homem do cangaço, a reação violenta à vida cruel.
A música começa com essa atmosfera, sempre permeada de desesperança. Uma quase reflexão inútil, onde a melodia se permite ser instável e não definitiva. Na sequência, um Baião mostra essa solidão mais ordenada, com um ritmo um pouco mais previsível e constante. Uma terceira parte traz um xaxado , dança típica dos cangaceiros em seus momentos de embriaguês e alegria, que ilude, prenuncia uma redenção que nunca chega.
V - Menino com Pião
Peça muito preciosa, pois me foi sugerida pelo filho de Portinari, João Candido. Nesta obra o pintor retrata o próprio filho.
Leveza, agilidade e introspecção de uma criança absorta, seu mundo é tudo aquilo, seu pião. A música também roda sempre, O movimento constante das músicas da Suíte Portinari aqui se exibe e dança sem o menor pudor. Delírios espirais, no eixo do pião e da melodia.
VI - Retirantes
O início extremamente triste e desesperançoso do violoncelo berra aos céus, sem resposta, enquanto o piano só apoia quase passivamente.
Inutilidade da vida, desesperança.
A densidade da dor e das sombras se esvai um pouco, alivia os sofrimentos, mas não adianta, pois é fugaz e enganosa.
Se retirar de onde, ir ora onde e por que?
VII - Obrigado
A única peça não inspirada em nenhuma obra específica de Portinari. Eu a escrevi para externar meu espanto e atordoamento perante a grandiosidade do artista. Mesmo pintando as mazelas do mundo, ele o torna muito melhor e mais suportável.