Uma voz que atravessa séculos e mitologias ganha nova forma no Centro Cultural Banco do Brasil, onde as celebrações pelo centenário de Andrea Camilleri assumem a expressão da peça teatral Duas Conversas com Tirésias. Sob a direção de Alessandra Vannucci, a interpretação de Giovanna de Toni e a música original de Beto Lemos transformam o monólogo do 'Maestro' em uma experiência que entrelaça mito e autobiografia, memória e invenção.
O espetáculo percorre as nove existências do adivinho cego que foram narradas em vinte e cinco séculos de literatura, desde a tragédia grega até a poesia contemporânea. Nesta metamorfose ambulante, Tirésias aparece sob inumeras vestes incorporando diversos gêneros e evocando outras personagens. Duas conversas, a primeira com a sacerdotisa do templo de Delfos à qual Tirésias sugere pronunciar os dois oráculos que determinam o destino de Edipo; a segunda com o público sentado na sala, revelam facetas inéditas e surpreendentes de sua celebérrima personalidade.
A encenação apresentada no Centro Cultural também presta homenagem à fragilidade do escritor, que havia partilhado: Desde que Zeus … decidiu tirar-me novamente a visão, senti a urgência de compreender o que é a eternidade. Uma confissão que se converte em chave interpretativa de todo o monólogo.
O último desejo pronunciado por Camilleri - Gostaria que nos reencontrássemos todos, aqui, numa noite como esta, daqui a cem anos! - ressurge hoje, no centenário de seu nascimento, como uma profecia realizada: um convite a ouvir novamente sua voz, viva, luminosa e inesgotável.