Durante oito séculos, a Basílica de Assis ajudou a construir uma das imagens mais reconhecíveis de Francisco. Giotto, Cimabue, as grandes narrativas pintadas nas paredes. Um pouco mais abaixo, quase invisíveis, outras mãos continuavam a escrever.
É dessas mãos que nasce Inciso nella Pietra. San Francesco e i suoi Pellegrini, documentário de Diego D’Innocenzo e Francesco Giannetti, produzido pela TERRA Srl. Cinquenta e quatro minutos para observar a Basílica a partir de outra distância, buscando nas paredes aquilo que normalmente escapa ao olhar.
Foram identificados mais de setecentos grafites e inscrições. Nomes, datas, orações, versos. Vestígios deixados por peregrinos, religiosos e viajantes que chegavam a Assis e sentiam a necessidade de gravar uma presença, um pensamento, um medo. Alguns sinais ocupam poucos centímetros. Outros se transformam em textos articulados. Uma das inscrições dialoga com o tema dos estigmas; outra aparece sob a imagem de Judas. Nas paredes permanece também uma série de longos textos gravados por um frade.
No ano em que se completam oitocentos anos da morte de São Francisco, o Istituto Italiano di Cultura do Rio de Janeiro apresenta o documentário como parte das iniciativas dedicadas ao seu legado. A escolha tem um sentido preciso: o filme evita um retrato celebrativo e observa Francisco através daquilo que permaneceu ao redor de sua imagem. Os afrescos contam o santo. Os grafites contam quem veio depois, o que buscou e o que sentiu necessidade de deixar registrado.
O documentário nasce do trabalho científico do projeto GRAFF-IT, financiado pelo European Research Council e coordenado pelo paleógrafo Carlo Tedeschi, da Università Gabriele d’Annunzio di Chieti-Pescara. A pesquisa estuda esses sinais como verdadeiras fontes históricas, capazes de restituir gestos e pensamentos que raramente encontram espaço nos documentos oficiais.
A fotografia segue a mesma lógica. Primeiro, o plano aberto dos afrescos. Depois, poucos centímetros de parede. A luz rasante faz reaparecer um sulco, a hesitação de uma mão, a pressão deixada sobre a superfície. Por um instante, a distância de oito séculos se encurta.