E se no lugar dos velhos contos de fadas que ignoram a pluralidade de tradições orais originárias, nossas crianças fossem apresentadas a histórias vivas, sopradas diretamente pelas águas da Amazônia? No encontro deste mês, o Museu das Culturas Indígenas convida mães, pais, educadores e crianças a mudarem a chave da escuta e abrirem espaço para narrativas ancestrais que continuam pulsando no presente.
Em “Sabedoria das Sereias”, Kena Marubo compartilha a história do guerreiro Vimi Peya e seu encontro com Machī mashe e Machī Roni, mulheres encantadas dos rios. Dessa convivência nas profundezas, o guerreiro trouxe o conhecimento que moldou a arquitetura das grandes malocas e a própria vida espiritual do povo Marubo (Yura). Mais do que uma narrativa sobre o passado, o conto ensina como a aliança entre humanos e seres das águas é a base para respeitar os ritmos da terra e a força da natureza.
Sobre Kena Marubo
Ativista indígena, originária do Vale do Javari (Amazonas), é uma das 20 jovens agentes culturais do Pontão de Culturas Indígenas, iniciativa que conecta e mobiliza redes de cultura indígena em todo o país. Além disso, dedica-se a trabalhos voluntários voltados à promoção de uma melhor qualidade de saúde para os povos indígenas, por meio do Instituto Saúde Sustentável (ISAS) e pela Cruz Vermelha brasileira, onde é coordenadora de Povos Originários e Tradicionais e atuou nas missões durante as enchentes no Rio Grande do Sul, em 2024. É, também, ceramista, artesã, comunicadora, criadora de conteúdo digital, confeiteira, além de realizar trabalhos como modelo e palestrante. É apresentadora do programa de entrevistas “Re-Existências”.
Sobre o Povo Marubo (Yura ou Yora)
Autodenominados Yura (ou Yora), são habitantes do alto curso dos rios Curuçá e Ituí, no Vale do Javari (AM). Trazem na história a força da reconstrução: refizeram sua sociedade após resistirem ao ciclo violento da exploração da borracha na Amazônia. Falantes de um idioma da família Pano, preservam um repertório ritual poético e complexo, com um vocabulário próprio mantido exclusivamente para os cantos de cura e as saudações cerimoniais. Ao lado de etnias vizinhas e de grupos em isolamento voluntário, os Marubo atuam hoje como guardiões de uma das regiões mais preservadas do país, fazendo da sua presença e de seus saberes tradicionais uma barreira viva contra o garimpo, o desmatamento e as invasões de territórios demarcados.
Sobre o Programa de Contação de Histórias MCI
Lançado em 2024, é um encontro mensal voltado a crianças e famílias, dedicado aos saberes e cosmologias dos povos originários. Mais do que ouvir narrativas, o programa propõe uma imersão em diferentes modos de viver, estar e cuidar do mundo. É um espaço de escuta ativa que celebra a pluralidade de vozes indígenas, promovendo o diálogo intercultural e o respeito à diferença desde a infância.
Ao longo dessa trajetória, o programa recebeu narradores que compartilharam a força de suas ancestralidades e suas vozes ecoaram:
2024: Lilly Baniwa (Baniwa); Luã Apyká (Tupi-Guarani); Naktamanãã Kuparaka (Pataxó); Dario Machado, Gerolino Cézar e Ranulfo Camilo (Terena); Kuenan Tikuna (Tikuna/Magüta); Djagwa Ka’agwy Kara’i Tukumbó (Guarani Mbya); Cristino Wapichana (Wapichana); Énh xym Akroá Gamella (Akroá Gamella); Coletivo Kanewí, com Júlia Maynã (Xukuru-Kariri) e Awassury Fulkaxó (Fulkaxó); Sônia Ara Mirim (Xukuru-Kariri) e Natalício Karaí de Souza (Guarani Mbya); Tserenhõ’õ Tseredzawê (Xavante); e Xipu Puri (Puri) e Abi Poty (Potyguara).
2025: Wera Xuru (Guarani Mbya); Elzeni Kaimbé (Kaimbé); Siriani Huni Kuin (Huni Kuin/Kaxinawá); Ediele Pankararu (Pankararu) e Ynaiê Máximo (Wassu-Cocal); Cristine Takuá (Maxakali), Maria Ara Poty (Guarani Mbya), Sônia Ara Mirim (Xukuru-Kariri) e Tamikuã Txihi (Pataxó); Lucia Benite (Guarani Mbya); Mulheres das Aldeias Piulewene e Ulupuwene (Waurá); Dani Mara (Borun e Pataxó); Tsinaki Ashaninka (Ashaninka); Maria Lídia e José Pankararu (Pankararu); Olivio Jekupé (Guarani Mbya); e Yndyan Fulkaxó (Fulkaxó), Laís Santos, Michele Saints, Simone Pankararu e Upya Pankararu (Pankararu), Txayane Fulni-ô (Fulni-ô) e Júlia Maynã (Xukuru-Kariri).
2026: Jhennifer Willys (afro-indígena, Tikuna e Kokama); Kawakani Mehinako (Mehinako); Maiara Astarte (Guajajara); Pedro Pankararé (Pankararé); Reinaldo Karai Tukumbo (Avá-Guarani); e Awassury Fulkaxó (Fulkaxó) e Silvia Nogueira; Mew Yawanawa (Yawanawa); e Emerson Baré (Baré), Fitsaká (Pankararu), Xipu Puri (Puri) e Yriwana Teluira Karajá (Iny Mahãdu).