Para o povo Huni Kuī, a palavra não existe no vazio. Contar uma história é um ato que convoca o corpo, o território e o espírito. Na edição de outubro do Programa de Contação de Histórias do Museu das Culturas Indígenas (MCI), a literatura originária transcende a audição e se transforma em prática de cura por meio do estudo do Rume Reske Yuxibu (Rapé Tradicional) e Kuī Rume Teneni (O Dono do Rapé).
A atividade será conduzida por Txana Paê Inu Bake, mensageiro da Aldeia Maê Yurayá, nas margens do Rio Purus, no Acre. O encontro coloca o público no centro de uma roda viva de histórias e trocas. O roteiro cruza a narrativa sobre a origem tradicional da medicina do Rume Reske Yuxibu com cantos na língua Hãtxa Kuī (Língua Verdadeira), abrindo espaço para a escuta atenta e para o diálogo direto sobre a cosmologia amazônica. O ritmo começa ancorado no maracá ancestral e avança para o tempo de transformação do Xina Bena (Novo Pensamento), somando o violão e a percussão livre de quem estiver presente.
Sobre Txana Paê Inu Bake
Do Povo Huni Kuī (“povo” ou “gente verdadeira”) e falante fluente de sua língua mãe, o Hãtxa Kuī, Txana Paê pertence à Aldeia Maê Yurayá (Nova Família), no Hēnē Hubeyá (Rio Purus), na Floresta Amazônica acreana, fronteira entre o Brasil e o Peru. Como Txana (“cantador”), músico, artista e mensageiro, ele atua na formação e inspiração das novas gerações, estudando e praticando a espiritualidade milenar do seu povo. Paê leva esses conhecimentos originários do território para as cidades, conduzindo cerimônias de consagração das medicinas curandeiras da floresta, rodas de conversa, palestras em escolas e universidades, além de oficinas musicais e linguísticas. Suas jornadas buscam a cura da matéria, do espírito e do pensamento, perpetuando a força ancestral e garantindo que esse saber alcance o futuro. Sua caminhada fortalece as necessidades da sua comunidade, incentiva o reflorestamento e a preservação ambiental, e promove o intercâmbio cultural para unir os povos em prol da cura do planeta.
Sobre o Povo Huni Kuī
Conhecidos nos antigos registros coloniais pelo termo Kaxinawá — um apelido pejorativo imposto por outros grupos —, eles se autodenominam Huni Kuī, a “gente verdadeira”. Maior população indígena do Acre, pertencente à família linguística Pano, habitam a fronteira entre Brasil e Peru. São conhecedores profundos da botânica florestal e guardiões de um sistema estético e espiritual onde os Kene (Desenho Verdadeiro - geométricos sagrados ensinados por Yube, a jiboia) não apenas enfeitam, mas protegem. Para eles, a música não é espetáculo; é a cadência do trabalho, da colheita, da chegada e do ritual.
Sobre o Programa de Contação de Histórias MCI
Lançado em 2024, é um encontro mensal voltado a crianças e famílias, dedicado aos saberes e cosmologias dos povos originários. Mais do que ouvir narrativas, o programa propõe uma imersão em diferentes modos de viver, estar e cuidar do mundo. É um espaço de escuta ativa que celebra a pluralidade de vozes indígenas, promovendo o diálogo intercultural e o respeito à diferença desde a infância.
Ao longo dessa trajetória, o programa recebeu narradores que compartilharam a força de suas ancestralidades e suas vozes ecoaram:
2024: Lilly Baniwa (Baniwa); Luã Apyká (Tupi-Guarani); Naktamanãã Kuparaka (Pataxó); Dario Machado, Gerolino Cézar e Ranulfo Camilo (Terena); Kuenan Tikuna (Tikuna/Magüta); Djagwa Ka’agwy Kara’i Tukumbó (Guarani Mbya); Cristino Wapichana (Wapichana); Énh xym Akroá Gamella (Akroá Gamella); Coletivo Kanewí, com Júlia Maynã (Xukuru-Kariri) e Awassury Fulkaxó (Fulkaxó); Sônia Ara Mirim (Xukuru-Kariri) e Natalício Karaí de Souza (Guarani Mbya); Tserenhõ’õ Tseredzawê (Xavante); e Xipu Puri (Puri) e Abi Poty (Potyguara).
2025: Wera Xuru (Guarani Mbya); Elzeni Kaimbé (Kaimbé); Siriani Huni Kuin (Huni Kuin/Kaxinawá); Ediele Pankararu (Pankararu) e Ynaiê Máximo (Wassu-Cocal); Cristine Takuá (Maxakali), Maria Ara Poty (Guarani Mbya), Sônia Ara Mirim (Xukuru-Kariri) e Tamikuã Txihi (Pataxó); Lucia Benite (Guarani Mbya); Mulheres das Aldeias Piulewene e Ulupuwene (Waurá); Dani Mara (Borun e Pataxó); Tsinaki Ashaninka (Ashaninka); Maria Lídia e José Pankararu (Pankararu); Olivio Jekupé (Guarani Mbya); e Yndyan Fulkaxó (Fulkaxó), Laís Santos, Michele Saints, Simone Pankararu e Upya Pankararu (Pankararu), Txayane Fulni-ô (Fulni-ô) e Júlia Maynã (Xukuru-Kariri).
2026: Jhennifer Willys (afro-indígena, Tikuna e Kokama); Kawakani Mehinako (Mehinako); Maiara Astarte (Guajajara); Pedro Pankararé (Pankararé); Reinaldo Karai Tukumbo (Avá-Guarani); e Awassury Fulkaxó (Fulkaxó) e Silvia Nogueira; Mew Yawanawa (Yawanawa); Emerson Baré (Baré), Fitsaká (Pankararu), Xipu Puri (Puri) e Yriwana Teluira Karajá (Iny Mahãdu); e Kena Marubo (Yura ou Yora).