O concerto Travessia, com Paolo di Sabatino e Zanna, aborda uma questão precisa: como duas tradições musicais podem se encontrar sem perder seus contornos. O projeto trabalha a canção como uma forma elástica, capaz de absorver diferentes acentos e devolvê-los com uma nova temperatura.
A escolha dos dois artistas é significativa. Paolo Di Sabatino pertence a uma linhagem do jazz italiano que conhece bem a canção, sua arquitetura, seu peso emocional. Zanna vem de uma prática musical brasileira em que voz, ritmo e comunicação sonora são elementos inseparáveis. O encontro entre os dois não nasce de uma soma de estilos. Nasce de uma compatibilidade mais concreta: ambos tratam a melodia como matéria viva.
O repertório reúne composições originais e referências à história dos intercâmbios musicais entre Itália e Brasil. De Ungaretti a Vinicius de Moraes, de Sergio Bardotti a Toquinho, de Mina a Chico Buarque e Ornella Vanoni, esse diálogo produziu páginas capazes de atravessar diferentes épocas. O concerto retoma essa linha e a conduz de volta à dimensão essencial do palco.
Dentro dessa perspectiva, Travessia convence porque confia a relação entre as duas culturas à qualidade da execução. O piano não apenas acompanha. Desenha espaço. A voz não apenas interpreta. Carrega memória, corpo e língua. O resultado é um concerto que dá forma a uma zona precisa do Atlântico: aquela em que uma canção muda de país sem perder o próprio nome.