Era início de 2015. A conjuntura sócio-política brasileira já dava sinais de que tempos ainda mais conturbados estavam por vir. Uma agenda baseada na intolerância, retirada de direitos e perseguição à liberdade artística voltava a ser adotada no país. Foi em meio a esse contexto, 42 anos depois da morte da paraguaia Soledad Barrett Viedma, assassinada pelo regime militar brasileiro, em 1973, na Região Metropolitana do Recife, que surgiu o espetáculo Soledad – a terra é fogo sob nossos pés.
Sete anos depois de sua estreia e algumas circulações pelo Brasil e o mundo, passando por cidades como Rio de Janeiro, São Paulo, Montevideo (Uruguai), Assunção (Paraguai) e Havana (Cuba), a produção já tem data definida para seu retorno aos palcos. Em mais uma circulação, dessa vez estadual, o público poderá conferir o espetáculo nos dias 12 e 13/03, no Teatro Hermilo Borba Filho (Recife); dia 18/03, no Centro de Formação Paulo Freire (Assentamento Normandia – Caruaru); dia 19/03, na Casa de Sementes Mãe Zenilda (Aldeia Xukuru – Pesqueira); e no dia 20/03, no Sesc de Arcoverde. Complementando a programação, mais ainda sem data fixada em decorrência da pandemia, a Ilha de Fernando de Noronha encerra o roteiro.
Sol”, como era conhecida entre os mais próximos, teve sua história desenhada em meio ao engajamento político de sua família. Seu Avô, o renomado jornalista e escritor espanhol, Rafael Barrett, foi uma grande inspiração ideológica para ela. Quando nasceu, seus pais e irmãos mais velhos já eram militantes e dedicavam suas vidas quase que integralmente à luta contra ditaduras em toda a América Latina. Os exílios políticos fizeram parte da sua vida desde muito nova, com menos de um ano idade enfrentou o seu primeiro, na Argentina. Aos 17 anos, em mais um exílio, dessa vez no Uruguai, Soledad foi sequestrada por um grupo neonazista e teve suas duas pernas marcadas com a suástica, através de uma navalha. Ela negou-se a gritar palavras em saudação a Hitler e por isso sofreu essa brutal violência.
Com isso, ao invés de se intimidar, Soledad passou a se dedicar ainda mais a militância. Imediatamente foi para Moscou estudar teorias comunistas. Depois de um ano, foi novamente para a Argentina e em seguida para Cuba, onde treinou táticas de guerrilha antes de vir para o Brasil e ser entregue à morte pelo seu então companheiro, conhecido por todos como Daniel, mas que, na verdade, era o Cabo Anselmo - o infiltrado dos órgãos de repressão mais conhecido do país. Sozinho, ele levou à morte aproximadamente metade de todos os mortos e desaparecidos políticos contabilizados pela ditadura brasileira. O fato de Soledad estar grávida dele não foi suficiente para sensibilizá-lo.
A dramaturgia do espetáculo surge a partir da cronologia da personagem, alcançada através de pesquisas de campo, músicas da época, poesias (muitas de ex-presos políticos), cartas, entrevistas sistemáticas, acesso a documentos e o contato com familiares – especialmente as parceiras do projeto, Ñasaindy e Ivich Barrett (filha e neta de Soledad, respectivamente). Vale ressaltar que Ñasaindy, inclusive, além de ter contribuído para esse processo de pesquisa, ainda assina a identidade visual do projeto, cedeu uma de suas composições para a trilha sonora do espetáculo e integra, como debatedora fixa, a equipe base de circulação da obra. Após o término de todas as apresentações a produção realiza debates, geralmente com temas que envolvam o ativismo artístico encampado pelo grupo.
A peça é encenada pela atriz pernambucana e idealizadora do projeto, Hilda Torres. A direção é da atriz e diretora que nasceu na Argentina, mas foi ainda pequena para São Paulo, Malú Bazán. As duas são responsáveis pela construção da dramaturgia, que toma fôlego a partir de uma costura entre diversos instrumentos de pesquisa e obras poéticas, que datam de 1904 até a contemporaneidade.
Com duração de 60 minutos, o solo desloca o espectador pra uma época aparentemente conhecida, mas pouco entendida e ao mesmo tempo levanta questões da atualidade, proporcionando um espaço de reflexão, provocação e possibilidades, sobretudo nos dias atuais. Trata-se de uma narrativa que traça um ousado “diálogo” entre o passado e o presente, nos levando a perceber que as coisas não mudaram tanto assim.
Palavras da diretora:
“O trabalho partiu da inquietação e do desejo da atriz Hilda Torres em contar essa história. E o projeto contou, desde o início, com a ajuda de muitas pessoas: ex-prisioneiros políticos, militantes da época que tiveram contato com Soledad, ou não, além de parentes e compatriotas paraguaios. Também recebeu o apoio de militantes contemporâneos, que entenderam a relevância do projeto como contribuição importante para diversas lutas sociais, como as de gênero, direitos humanos e a do entendimento da arte como instrumento de formação e empoderamento sociopolítico e cultural. Um espaço de reflexão, provocação e possibilidades.”
Palavras da atriz:
“Falar sobre Soledad é traçar um caminho de poesia onde a dor e a alegria estão juntas, seguindo em marcha para erguer ideais libertadores. Falar sobre “Sol” é falar de um pedaço de todos nós, que nos impulsiona diariamente a enfrentar, resistir, sem nunca abrir mão do brilho nos olhos ao imaginar um mundo melhor, com direitos iguais para todos e todas, na compreensão das nossas diferenças.”
Sobre a atriz:
Hilda Torres é atriz e psicóloga. Com 25 anos de carreira, Hilda atua no teatro e com experiências pontuais em televisão e cinema. Atuou em peças como “Essa febre que não passa”- Dir. André Brasileiro e Marcondes Lima e “Autônomas”- Dir. Jorge Clésio. Na televisão, atuou na minissérie “A pedra do reino”. No cinema, seus últimos trabalhos foram “A felicidade não é deste mundo” e “Ursos camaradas”. “Soledad – a terra é fogo sob nossos pés” é o seu primeiro monólogo. Hilda foi premiada como melhor atriz do teatro pernambucano em 2016, escolhida pela Associação dos Produtores de Teatro de Pernambuco - APACEPE.
CONTATO:
Áurea Luna: (Produtora) – (81) 99979.8128 (Tim)
Márcio Santos (Produtor) – (81) 99697.6060 (Tim)
Hilda Torres (Atriz) – (81) 99662.5333 (Tim)