Eugenia dysenterica (Mart.) DC., popularmente conhecida como cagaiteira é uma espécie nativa do Cerrado brasileiro que apresenta diversos potenciais de utilização, seja como alimento, medicinal, madeira para construções ou ornamental. Também apresenta importância ecológica por fornecer alimento a espécies da fauna local. Diversos estudos voltados à caracterização da diversidade, estrutura genética e atuação de processos microevolutivos dentro das populações nativas e de uma coleção de germoplasma de E. dysenterica tem sido realizados nas últimas décadas, utilizando principalmente marcadores moleculares. A caracterização genômica de espécies vegetais nativas, como a cagaiteira, se constitui em um passo importante para o desenvolvimento de estratégias eficientes de conservação e melhoramento e isso tem se tornado possível graças aos constantes avanços das tecnologias de sequenciamento e das ferramentas para análise dos dados. Neste estudo, foi realizado a montagem e a caracterização do genoma cloroplastidial e de um transcritoma de referência para E. dysenterica, utilizando dados de sequenciamento massivo paralelo. Para a montagem do plastoma, foram obtidas amostras de DNA a partir de folhas de indivíduos adultos, sequenciadas utilizando a plataforma Illumina MiSeq. Para o transcritoma, amostras de RNA total foram extraídas de folhas e plântulas e sequenciadas utilizando a plataforma Illumina HiSeq 2500. O genoma cloroplastidial de E. dysenterica apresenta 158.560 pb de tamanho e está organizado em estrutura quadripartida, comum para as plantas terrestres descritas na literatura. Foram identificados 112 diferentes genes cloroplastidiais, dos quais 78 codificam proteínas, 30 codificam tRNAs e 4 codificam rRNAs. Também foram identificadas 78 regiões SSR, sendo a maioria delas localizadas em regiões intergênicas da porção LSC do cloroplasto. A diversidade nucleotidica média estimada entre o plastoma de E. dysenterica e outras quatro espécies do mesmo gênero foi de 0,0064, variando de 0,0000 a 0,0315. A taxa de substituição Ka/Ks média entre essas espécies comparadas foi de 0,1907. A análise filogenética confirmou que E. dysenterica está intimamente relacionada a outras especies de Myrtaceae, com fortes valores de bootstrap (87,7% a 100%). A caracterização do transcritoma de E. dysenterica, utilizando a abordagem de RNAseq, é inédita dentre as espécies nativas do Cerrado e possibilitou a identificação de 171.070 transcritos, de 43.605 genes, anotados com base em diferentes bancos dados de referência. Além disso, também foram identificados 636.269 SNPs que deverão ser validados em futuros estudos. As informações geradas neste estudo constituem importantes recursos genômicos para a espécie e poderão ser utilizadas no desenvolvimento de estratégias eficientes de cultivo e conservação de E. dysenterica, além de servir como subsídio para estudos de outras espécies vegetais não-modelo.