Se algum dia pensamos o mundo vazio, um mundo em que estamos sós e perdidos, não é este.
Laura Pugno
Com essas palavras, Laura Pugno abre a passagem para o pensamento que anima Noi Senza Mondo (Nós Sem Mundo), um livro que não se limita a descrever, mas transforma. Trata-se de uma aventura interior que não se desenrola na alma da autora, mas na alma do próprio mundo: esse mundo que nos cerca, feito de palavras – muitas em forma de livro – de animais, folhas, frutos e coisas invisíveis, todas juntas, e talvez cada uma, maiores e mais vastas do que nós.
O encontro com Laura Pugno e Patricia Peterle, tradutora do volume para o português, mediado por Claudia Lamego, apresenta o livro como uma travessia dentro de uma metamorfose: não é o mundo que termina, o que termina é um mundo. Nessa passagem do artigo definido ao indefinido, Pugno – talvez a menos antropica entre os escritores italianos – traça um caminho de coexistência que rompe a dominância do ser humano sobre o contexto.
Partindo de seus próprios pensamentos e palavras, e do romance O Último dos Moicanos de James Fenimore Cooper, a autora constrói uma reflexão sobre o sentido de escrever e sobre a própria respiração da poesia: O mundo é vocal, canta. Com uma escrita fragmentada, nunca sentimental, mas sempre precisa e intensa, Pugno nos conduz a um universo de metamorfoses que é, talvez, o único no qual ainda podemos nos reconhecer. Noi Senza Mondo não é um memoir, tampouco uma reconstrução autobiográfica: é uma aventura que move o espírito e, consequentemente, o corpo.