12 nov - 2026 • 18:00 > 14 nov - 2026 • 18:00
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A
clínica psicanalítica e o laço social hoje
O
laço social hoje encontra-se profundamente determinado pelo discurso do capitalista. Como destaca
Soler (2016), há um consenso de que vivemos sob uma ameaça permanente de
desenlace, traduzida por afetos com tonalidades depressivas. Ela considera que
tal ameaça traz consequências subjetivas: solidão, desencantamento, decepção,
desconfiança, dentre outras. O psicanalista, porém, não deve se deixar fascinar
por essas formas que o mal-estar adquire, pois seu interesse está voltado para
a estrutura que as funda.
Freud
(1930) perguntava-se como os corpos, constituídos pelo autoerotismo e o
narcisismo, podem fazer laço, isto é, investir a libido em outros objetos.
Tentou responder a essa questão colocando o amor como fundante do laço, mas se
deparou com as forças disruptivas advindas da servidão voluntária a um Ideal do
Eu, que inibem o pensamento e colocam os membros do grupo em identificações
horizontais, com efeitos de rivalidade, agressividade e segregação.
Conforme
Soler (2016), a indicação de Lacan a esse respeito é clara: o que retém os
corpos é o aparelho de linguagem que impõe a todo ser falante uma perda de
gozo, produzindo a falta-a-ser e o desejo. Esse mal-estar provoca a necessidade
de regulação do gozo para que os corpos possam, para além da relação de
vizinhança, fazer laço social. Como destaca Lacan (1974), são os discursos que
efetuam essa regulação ao constituírem modos de tratar o real.
Entretanto,
diferentemente dos outros discursos, o discurso do capitalista caracteriza-se
pela foraclusão do laço social (Lacan, 1972). Ele escamoteia a falta
real e tenta substituí-la pelos gadjets (Lacan, 1967). Isso furta o
sujeito de uma mediação ao Outro, deixando o gozo sem limites. Sua divisão fica
eclipsada pela noção de (in)divíduo, estado ideal perseguido incansavelmente na
contemporaneidade. Por consequência, impera um estado crônico de apatia e uma
precariedade do desejo, posto que o gozo singular do sujeito, que é
desunificador, não encontra lugar neste
discurso (Soler, 2016).
Em
contrapartida, o discurso analítico coloca em jogo a singularidade, suprimida
pelo discurso do capitalista (Askofare, 2021). Por isso, a resposta de analista
constitui um “laço extra-ordinário” (sic) com a solidão radical marcada
pelo “gozo fora de série” (Fingermann, 2016). Embora solitário, o ato analítico
cria um laço social em que a solidão encontra seu
limite, o que não se encontra em nenhuma outra modalidade de discurso (Soler,
2026). Ao promover um tipo de laço que inclui a singularidade, a psicanálise
amplia as possibilidades de enlaçamento. Isso desperta múltiplas resistências,
uma vez que a lógica de mercado depende do isolamento dos sujeitos e do consumo
de objetos que prometem o gozo sem limites.
Como
o psicanalista precisa estar à altura da subjetividade de sua época (Lacan
1953), torna-se crucial saber o que a psicanálise pode trazer de transformador
nas configurações de laço social hoje. De que modo a psicanálise, que leva em
conta o real, pode contribuir para tratar a fragilização dos laços sociais?
Como sustentar uma clínica do desejo, tal como concebido pela psicanálise?
Advertidos
de que o ser falante em sua singularidade não se confunde com a ilusão de
(in)divíduo produzida na sociedade contemporânea, fica o convite ao trabalho!
Comissão Científica X
Colóquio EPFCL-RDB
Referências
Bibliográficas
ASKOFARE,
S. (2021). La psychanalyse à l'épreuve de la différence/des différences (II). Trivium, Rio de Janeiro, v. 13, n. spe, p. 12-16, mar. 2021.
FINGERMANN,
D. (2016). Clínica Psicanalítica: Laços e Desenlaces. Stylus (Rio J.), Rio de Janeiro, n. 32, p. 7-9, jun. 2016.
FREUD,
S. (1930). O mal-estar na civilização. In: Edição Standard Brasileira
das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago,
1976, vol. XXI, pp. 81-174.
LACAN,
J. (1953). Função e Campo da fala e da linguagem em psicanálise. Escritos.
Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998, pp. 238-324.
LACAN,
J. (1967). Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola. Outros
Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003, pp. 248-264.
LACAN, J. (1972). Du
discours psychanalytique: discours de Jacques Lacan à l'Université de Milan le
12 mai 1972, paru dans l'ouvrage bilingue. In Lacan in Italia (1953-1978). Milan: La
Salamandra, 1978, pp. 32-55.
LACAN, J. (1974). Televisão. Rio
de Janeiro: Jorge Zahar, 1993.
SOLER,
C. O que faz laço. São Paulo: Editora Escuta, 2016.
SOLER,
C. Seminario Escuela “La soledad del acto. Estar solo y la Escuela”.
Tarragona: FFCLE F8 Federación Foros España. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=aF5rIT3TlrE.
Acesso em 28 abr.
2026.
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