A psicanálise tem uma história dividida. Não seria difícil encontrá-la como força de adaptação às exigências normativas da vida social nas sociedades capitalistas ou, no Brasil, como serviço de acolhimento de desorientações existenciais das nossas elites. Essa história é longa e, infelizmente, recorrente. Mas a psicanálise é também e principalmente uma articulação entre clínica e crítica social que marcou toda a história do século XX. As lutas sociais de transformação de nossas relações ao desejo, à sexualidade, ao corpo, a compreensão de que a verdadeira emancipação passa pelo duro trabalho de reconhecimento da profundidade de nossa servidão, o sofrimento ligado à constituição de identidades e papéis sociais, a maneira com que relações de autoridade nos fazem sofrer: essas são algumas das dimensões profundamente marcadas pela psicanálise. Em vários momentos, ela soube mostrar como não há clínica sem o aprofundamento da crítica social nas dimensões da linguagem, do desejo e do trabalho.
Esse curso visa introduzir a psicanálise a partir dessa vertente, por acreditar que ela é a única realmente consequente com seu espírito mais originário, mesmo que isso seja continuamente esquecido e desvirtuado pelas formas mais abertas de revisionismo. Para tanto, esse curso oferecerá uma introdução através da psicanálise de orientação lacaniana. Privilegiando tanto suas abordagens clínicas concretas quanto suas dimensões de questionamento social, ele não pressupõe formação inicial em psicanálise e pede apenas a disposição de exercício da capacidade crítica e da revolta.
Serão 4 encontros ao vivo com Vladimir Safatle, sempre das 19h às 21h.
Aula 1 (07/11/2023): O Eu como o verdadeiro sintoma. Uma teoria materialista da formação social do Eu e suas consequências clínicas. Por que a psicanálise se recusa a adaptar sujeitos à realidade? Paranoia como chave compreensiva da estrutura cognitiva da consciência.
Aula 2 (09/11/2023): Desejar é dizer não. Uma teoria do desejo na base da crítica social. Por que negatividade não é resignação? Uma revisão do desejo como falta-a-ser. O destino da teoria das pulsões e a necessidade de preservar a categoria clínica das neuroses.
Aula 3 (14/11/2023): Sexo sempre será um princípio de desordem. Por que não há nem nunca poderia haver binarismo na clínica psicanalítica? O monismo lacaniano e seus e suas descontentes. Uma teoria do gozo na base da economia libidinal da sociedade. Qual o destino para as perversões?
Aula 4 (16/11/2023): A transferência como base da clínica analítica. A verdadeira emancipação passa pela encarnação clínica de nossa servidão. Uma teoria do objeto causa do desejo no interior das relações de saber e poder na clínica.
VLADIMIR SAFATLE
Filósofo e psicanalista. Professor Titular do Departamento de filosofia e do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), além de professor convidado e pesquisador em outras universidades e instituições europeias, africanas e norte-americanas (Paris I, Paris VII, Paris VIII, Paris X, Toulouse, Louvain, Stellenboch Institute of Advanced Studies/Africa do Sul, Essex, Berkeley, Veneza). Um dos fundadores da International Society of Psychonalysis and Philosophy (SIPP-ISPP) e um dos coordenadores do Laboratório de Pesquisas em Teoria Social, Filosofia e Psicanálise (latesfip/USP). Colunista da Folha de São Paulo por 10 anos, colunista do El País por 3 anos, escreve para os principaais jornais do páis. Foi considerado pela Revista Veja como "um dos pensadores de esquerda mais celebrados hoje no Brasil".
Autor dos livros: A Paixão do Negativo: Lacan e a dialética (Unesp 2006, finalista do prêmio Jabuti), Introdução a Lacan (Autêntica, 2007) Grande hotel abismo: por uma reconstrução da teoria do reconhecimento (Martins Fontes, 2012), O Circuito dos Afetos: Corpos Políticos, Desamparo e o Fim do Indivíduo (Autêntica, 2016), Maneiras de transformar mundos: Lacan, política e emancipação (Autêntica, 2019) e Neoliberalismo como gestão do sofrimento psíquico (em co-organização), finalista do Prêmio Jabuti, 2022.