Uma das coisas que eu mais escuto nas redes sociais , mas também no consultório é : a psicanálise é muito difícil, não compreendo.
Talvez a angústia só aumente quando há a ilusão de que com o tempo vai se compreender melhor as coisas.
Mas à proporção que se avança no saber, novos problemas aparecem, zonas desconhecidas despontam no horizonte, o saber se reorganiza para não ser dominado. O saber é rebelde. Nada deve à nossa compreensão. Somos efeito do saber e não o contrário.
Por isso é preciso paciência para que o saber se elabore.
Num mundo dominado pelos princípios da eficácia e eficiência é muito difícil deixar o inconsciente trabalhar. Acreditamos poder dar uma mãozinha… mas será que o inconsciente precisa de nós?
No seminário 6, Lacan tenta apresentar seu Grafo do desejo: “Gostaria de observar que o termo “compreensão” é problemático. Se há, entre vocês, alguns que sempre, em qualquer situação e a todo instante, compreendem o que fazem, eu os felicito e invejo. Mesmo após 25 anos de exercício, não é isso o que corresponde à minha experiência”.
O advento da função do analista está determinado pela contingência na experiência analítica, na qual o impossível de saber sobre o desejo toca a impossível garantia do Outro.
Quem ainda não se confrontou com essa dificuldade, nem ao menos começou.
Lacan é enfático ao afirmar que formações só as do inconsciente.
Se alguém pretende autorizar-se analista é preciso começar pelo inconsciente; ter a ousadia de começar uma análise e percorrer seu ciclo completo. Isto é, levar a sério a questão do final de análise.
Não basta ser interessado pela psicanálise; não é suficiente querer “tornar-se analista”, é preciso pôr à prova esse desejo.
A psicanálise não se transmite como qualquer outro saber.
O saber de que se trata, o saber do analista, ele precisa construí-lo com seu próprio inconsciente na experiência.
Mas esse “próprio inconsciente” não implica em qualquer noção de subjetividade, mas sim que esse saber é uma construção em análise: “é preciso que cada psicanalista reinvente, a partir do que ele tirou do fato de ter sido durante um tempo psicanalisante, a maneira pela qual a psicanálise pode perdurar” (Lacan em Congresso sobre a transmissão, 1978).
É preciso deixar o inconsciente comandar a experienciar de saber; nesta experiência, quem sabe? O inconsciente trabalha, nesta dimensão ninguém pode arvorar o saber. Fazer a experiência do inconsciente não é senão abordar o furo irredutível que o constitui.
Essas são as questões que iremos abordar nas três horas dedicadas a este encontro. A ideia é formar um pequeno grupo de pessoas que tenham a oportunidade de colocar suas questões, dúvidas e inquietações sobre o tema.
Espero vocês!
Rafael Lobato Pinheiro.