16 jun - 2026 • 19:30 > 16 jun - 2026 • 21:30
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Débora Tavares é mestre e doutora em literatura pela Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), onde pesquisou a obra de George Orwell e sua relação com a História. Atua como professora, oferecendo cursos sobre literatura, relações entre arte e sociedade, assim como metodologia de pesquisa. Autora de ensaios nessa área, entre eles o posfácio “A esperança vem do plural” da edição de 1984 publicado pela editora Antofágica.
Caio Rubini é doutorando em História Social (FFLCH-USP), mestre em Pensamento Político e Social (Filosofia) pela University of Sussex (Reino Unido), historiador e professor de História pela Universidade de São Paulo (FFLCH/FE-USP) e bacharel em Comunicação Social – Jornalismo. Atualmente trabalha como professor, ministrando cursos de Humanidades, em especial História e Filosofia. Além disso, pesquisa elementos históricos e filosóficos do século XX, baseado na Teoria Crítica, com ênfase na obra do autor Walter Benjamin.
E-mail: [email protected]

Horário síncrono: 19h30 - 21h30 (Horário de Brasília)
Datas das aulas: 16, 23, 30 de junho e 7 julho
Gravação disponível até: 07/08 e 31/12 (plano Cátedra)

Esse curso dá continuidade ao diálogo entre George Orwell e Walter Benjamin iniciado em "O mundo em ruínas", aprofundando agora uma questão que atravessa toda a obra de ambos: o que acontece com a narrativa quando a experiência humana entra em colapso? Se no primeiro módulo investigamos os diagnósticos históricos e políticos dos dois autores, neste segundo módulo analisaremos como esses diagnósticos se traduzem em problemas de forma literária. Cada aula examina uma dimensão dessa crise: a representação da cidade moderna, o destino do romance, a posição do escritor diante da guerra e, por fim, a tensão entre o silêncio estético e a exigência de despertar coletivo.
Aula 01 - Paris, a cidade da modernidade
Na primeira aula, analisaremos como Orwell e Benjamin narram a metrópole europeia em crise. Orwell, em Na Pior em Paris e Londres, adota uma postura naturalista e imersiva: ele vive a exaustão física do trabalhador precarizado e do “vagabundo”, narrando a miséria de baixo para cima. Benjamin, em Rua de Mão Única e Paris, Capital do Século XIX, lê a cidade por meio da montagem fragmentária e da alegoria, revelando a decadência burguesa através de imagens justapostas, como no cinema e na fotografia. Veremos como duas estéticas radicalmente distintas, a reportagem literária de Orwell e o aforismo alegórico de Benjamin, respondem ao mesmo colapso do capitalismo na metrópole: a Paris dos esgotos e das cozinhas imundas, em Orwell, e a Paris labiríntica dos flâneurs e das passagens comerciais, em Benjamin.
Obras analisadas
George Orwell, Na Pior em Paris e Londres (1933)
Walter Benjamin, Rua de Mão Única (1928) e Paris, Capital do Século XIX (1935)
Aula 02 - A crise da forma
Na segunda aula investigaremos uma coincidência reveladora: em 1936, tanto Orwell quanto Benjamin escrevem sobre a crise da narrativa. Orwell, em Em defesa do romance, defende o romance contra a invasão da mídia de massa, do jornalismo vulgar e do cinema, preocupado com o rebaixamento técnico e com o futuro do ofício do romancista. Benjamin, em O Narrador, diagnostica que a arte de contar histórias está morrendo porque a experiência humana perdeu sua comunicabilidade, sobretudo após a Primeira Guerra Mundial. A divergência entre os dois é profunda: enquanto Orwell enxerga o romance como uma forma de prestígio em decadência, Benjamin identifica na própria ascensão do romance um sintoma do isolamento burguês, o escritor-indivíduo que perdeu a capacidade de aconselhar. Estudaremos como essa tensão entre a defesa e o questionamento do romance ilumina um debate mais amplo sobre a morte da experiência e a sobrevivência da literatura.
Obras analisadas
George Orwell, In Defense of the Novel (1936) Walter Benjamin, O Narrador: considerações sobre a obra de Nikolai Leskov (1936)
Aula 03 - O autor nas trincheiras
Na terceira aula analisaremos o que acontece quando o escritor abandona a posição de observador e entra na história como participante. Orwell, em Lutando na Espanha, pega em armas na Guerra Civil Espanhola e produz um relato que desmistifica a guerra literária romântica: sua luta se torna, antes de tudo, uma busca pela preservação da verdade objetiva contra a máquina de mentiras do jornalismo vulgar. Benjamin, em O Autor como Produtor, formula a questão em termos teóricos: para ele, ter boas intenções políticas ou escrever sobre a revolução é insuficiente, porque o escritor engajado precisa transformar o próprio aparelho de produção literária, como Brecht fez com o teatro. Veremos como o encontro entre esses dois textos revela o limite ético e estético do engajamento intelectual: de um lado, a matéria bruta da decepção política descrita por Orwell; de outro, a exigência de Benjamin de que o autor subverta as estruturas que sustentam a sociedade burguesa, em vez de simplesmente fornecer conteúdo a elas.
Obras analisadas
George Orwell, Lutando na Espanha (1938) Walter Benjamin, O Autor como Produtor (1934)
Aula 04 - O papel social da escrita
Na última aula chegaremos à tensão que encerra o curso: diante de um mundo em ruínas, o escritor deve se calar ou deve mobilizar a própria forma estética como ferramenta de intervenção? Orwell, em Dentro da Baleia, analisa uma obra de Henry Miller como expressão do escapismo moderno, o escritor que aceita o mundo como ele é e se refugia no quietismo e na estética pessoal, longe do barulho do capital e do fascismo. Benjamin, no ensaio sobre o Surrealismo, recusa frontalmente esse comodismo ao propor o conceito de "pessimismo organizado": o intelectual deve mobilizar todas as energias de sua produção a partir da dialética da práxis, capaz de despertar a consciência adormecida do proletariado. Estudaremos como essa relação revela duas formas de responder à catástrofe da sociedade moderna diante do advento da Segunda Guerra Mundial.
Bibliografia
George Orwell
ORWELL, George. Dentro da baleia e outros ensaios. Tradução de Daniel Piza. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.
ORWELL, George. Lutando na Espanha. Tradução de Pedro Maia Soares. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
ORWELL, George. Na pior em Paris e Londres. Tradução de Pedro Maia Soares. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.
ORWELL, George. Ensaios. Organização, prefácio e tradução de Jacinta Maria Matos. Lisboa: Editora 70, 2021.
ORWELL, George. O que é o fascismo e outros ensaios. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.
Walter Benjamin
BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas, vol. 1: Magia e técnica, arte e política. Tradução de Sérgio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1985.
BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas, vol. 2: Rua de mão única. Tradução de Rubens Rodrigues Torres Filho e José Carlos Martins Barbosa. São Paulo: Brasiliense, 1987.
BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas, vol. 3: Charles Baudelaire, um lírico no auge do capitalismo. Tradução de José Carlos Martins Barbosa e Hemerson Alves Baptista. São Paulo: Brasiliense, 1989.
BENJAMIN, Walter. Ensaios sobre Brecht. Tradução de Claudia Abeling. São Paulo: Boitempo, 2017.
BENJAMIN, Walter. Documentos de cultura, documentos de barbárie. São Paulo: Cultrix, 1986.
Teoria Crítica, Literatura e Comentadores
ADORNO, Theodor W. Notas de literatura I. Tradução de Jorge de Almeida. São Paulo: Duas Cidades; Ed. 34, 2003.
ADORNO, Theodor W.; HORKHEIMER, Max. Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos. Tradução de Guido Antonio de Almeida. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.
BRECHT, Bertolt. Estudos sobre teatro. Tradução de Fiama Hasse Pais Brandão. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005.
EAGLETON, Terry. Walter Benjamin, ou, Rumo a uma crítica revolucionária. Tradução de Klaus Brandini Gerhardt. São Paulo: Boitempo, 1998.
FROMM, Erich. O medo à liberdade. Tradução de Dante Moreira Leite. Rio de Janeiro: Zahar, 1983.
GAGNEBIN, Jeanne Marie. História e narração em Walter Benjamin. São Paulo: Perspectiva, 1992.
KONDER, Leandro. Walter Benjamin: o marxismo da melancolia. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1999.
LÖWY, Michael. Aviso de incêndio: Uma leitura das teses "Sobre o conceito de história". São Paulo: Boitempo Editorial, 2005.
LUKÁCS, Georg. Marxismo e teoria da literatura. São Paulo: Expressão Popular, 2010.
TAVARES, Débora. "A esperança vem do plural". Posfácio in: ORWELL, George. 1984. Rio de Janeiro: Antofágica, 2021.
TAVARES, Débora. "Political Writing into an Art". Introdução in: ORWELL, George. The Road to Wigan Pier. Londres: Flaming Tree Editions, 2021.
WILLIAMS, Raymond. Cultura e sociedade: de Coleridge a Orwell. Tradução de Leônidas Hegenberg et al. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1969.
WOODCOCK, George. A pena de cristal: um estudo sobre George Orwell. São Paulo: Círculo do Livro, 1973.
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Livre Literatura
Débora Tavares, Mestre e Doutora em Letras pela Universidade de São Paulo (USP). Especialista renomada na obra de George Orwell. Caio Rubini, Historiador e Mestre em Filosofia pela Universidade de São Paulo (USP), e University of Sussex (Reino Unido).
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