14 abr - 2026 • 19:00 > 14 abr - 2026 • 21:00
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SOBRE:
Em 1917, Franz Kafka escreveu "Um Relatório para uma Academia", um conto que retrata a trajetória de um macaco, capturado por humanos que o nomeiam Pedro Vermelho, e que narra sua domesticação. Enjaulado, Pedro Vermelho aos poucos aprende a linguagem humana, e encontra-se novamente preso: passa da jaula física à jaula da linguagem. Em 2019, Paul Preciado realizou o discurso "Eu sou o monstro que vos fala: relatório para uma academia de psicanalistas", em que fez alusão ao conto de Kafka, comparando-se ao referido personagem.
Esse discurso suscitou reações críticas por parte tanto da comunidade psicanalítica como da comunidade trans. Por um lado, os tensionamentos evocados por Preciado incitaram respostas que mobilizam conceitos basais da psicanálise, de modo que se revelassem importantes pontos de tensão. Por outro lado, a monstruosidade evocada por Preciado contrasta com monstruosidades outras, como a declarada pela poeta trans sudaca Susy Shock, em seu poema "Eu, Monstro Meu" (2015); a elaborada pela escritora chilena Claudia Rodríguez, em seus zines e publicações independentes, especialmente em sua metaforização de si na figura de King Kong; como na trajetória des-artística de Lechedevirgen, que brevemente menciona, de modo crítico, o trabalho de Preciado; como nos zines de Lino Arruda, em seu projeto MonsTrans e Quimer(d)a. Essas produções trans e autônomas da América Latina exercem não o aprendizado da linguagem humana em vias de uma potencial libertação, mas recusam-se a se assimilar a essa linguagem, recuperando, de certa forma, as palavras de Audre Lorde, "as ferramentas do mestre nunca vão desmantelar a casa-grande".
Na leitura e na escrita, no aprendizado da língua do patriarcado colonial, Rodríguez escreve, em Enferma del alma , que “aprender a leer y a escribir fue comenzar a llenarme de miedos”. Ao passo que Preciado maneja essa língua para enunciar-se monstro aos psicanalistas que o escutavam, Rodríguez rejeita essa língua no reconhecimento de sua violência: “El lenguaje calló y lo destruyó todo a su paso, arrancandome de ser niña para dejarme escupia en este mundo rajado en dos, y a mi despreciable”. Essa linguagem, para Rodríguez, não serviu como uma porta de entrada, nem como capacitante; não lhe permitiu se enunciar, seja humana, seja monstruosa, seja o que for.
Como escreve em Dramas pobres: poesia travesti, Cláudia Rodríguez se assimila a um monstro que abre bem a boca e monstra todos os seus dentes quando um homem a convida a dar-lhe um sorriso, “Mi resistencia, mi arma, mi puñal, mi fusil es mostruo-siarme;”. Monstruosidades que não desejam apenas fazer algo, mas des-fazer, como anuncia Lechedevirgen em seu livro Deshacer el arte . Trata-se não necessariamente de criar uma "nova gramática", como sugeriu Preciado, nem de nos elevarmos ao conceito de cidadania que todo estado-nação adora. Conceber como arquétipo de monstruosidade aquele evocado por Preciado me parece uma narrativa do descobrimento, sempre acompanhado por um encobrimento (Enrique Dussel, El encubrimiento del Otro) . Nas palavras de Hija de Perra, “Existimos desde que nos descobriram? Parece que nossa voz só se valoriza quando o dominante nos encontra, nos faz existir”. Como se a “monstransidade” (abigail Campos Leal, Ex/orbitâncias ) somente adquirisse estatuto de existência quando de sua inteligibilização.
Nesse encontro, realizaremos um estudo, longe de romantizações, sobre as principais provocações trazidas no discurso de Preciado, assim como sobre as principais respostas publicadas a respeito por parte de comunidades psicanalíticas. Em seguida, refletiremos sobre a "monstruosidade" que o autor reivindica e sobre as problemáticas dessa reivindicação, especialmente por um olhar trans latinoamericano, anti-colonial e psicanalítico.
IDEALIZAÇÃO E FACILITAÇÃO:
Cello Pfeil
Editor da Revista Estudos Transviades e colaborador do Preparatório Transviades. Pesquisador do Observatório Anderson Herzer e membro do IBRAT. Militante anarquista & transviado. Às vezes, doutorando em filosofia.
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