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Migração, raça e gênero: a produção colonial das diferenças

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Migração, raça e gênero: a produção colonial das diferenças

04 jul - 2026 • 10:00 > 12 jul - 2026 • 12:00

Evento Online via Zoom
Evento encerrado

Migração, raça e gênero: a produção colonial das diferenças

04 jul - 2026 • 10:00 > 12 jul - 2026 • 12:00

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Migração, raça e gênero: a produção colonial das diferenças

Descrição do evento

aula 01 - 4 de julho

O mundo em deslocamento: guerras, colonialismo e produção de refugiados

Com: Rima Awada Zahra


Vivemos uma era marcada por deslocamentos humanos em escala sem precedentes. Segundo organismos internacionais, milhões de pessoas no século XXI foram forçadas a abandonar suas casas em razão de guerras, perseguições, colapsos econômicos, crises climáticas e diferentes formas de violência política. No entanto, compreender os deslocamentos contemporâneos exige ultrapassar narrativas simplificadas que apresentam a migração apenas como escolha individual ou crise humanitária isolada. É necessário perguntar: quais estruturas históricas, políticas e econômicas produzem os deslocamentos do nosso tempo?


Esta aula propõe situar a migração contemporânea no contexto da ordem política global, compreendendo os fluxos migratórios como profundamente relacionados às dinâmicas de guerra, colonialismo, imperialismo e reorganização das fronteiras nacionais. Muitos dos territórios hoje atravessados por conflitos persistentes carregam heranças coloniais, disputas geopolíticas e processos históricos de exploração que continuam a produzir instabilidade, desigualdade e expulsão de populações.


Ao longo do encontro, refletiremos sobre o crescimento dos deslocamentos forçados no século XXI e sobre a relação entre violência política, econômica e mobilidade humana. Discutiremos quem produz os refugiados do mundo contemporâneo, deslocando o olhar da figura do refugiado como “problema” para as condições globais que tornam certas vidas permanentemente vulneráveis ao desenraizamento.


Também abordaremos o regime contemporâneo de fronteiras, interrogando os critérios que definem quem pode circular livremente e quem é barrado, vigiado ou criminalizado. Questões como cidadania, nacionalidade e pertencimento tornam-se centrais para compreender como o mundo contemporâneo organiza desigualmente o direito ao movimento, produzindo hierarquias de mobilidade e humanidade.


Por fim, analisaremos a figura do refugiado não apenas como uma categoria jurídica ou humanitária, mas como um sintoma das contradições da ordem mundial contemporânea, uma figura que revela os limites dos Estados-nação, das políticas de fronteira e das promessas universais de direitos humanos.


Minibio:

Rima Awada Zahra é psicóloga, professora e coordenadora da pós-graduação em Psicologia e Migração da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Coordena os coletivos Sout – Vozes em Movimento e Psimigra, dedicados à escuta, formação e cuidado em contextos de migração e refúgio. É autora e coautora de obras voltadas às áreas de migração, educação e saúde mental com populações em situação de vulnerabilidade social, reconhecidas por instituições como a Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil e a Biblioteca Nacional, além de selecionadas para o Clube de Leitura dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU. Organizou e traduziu as obras Sumud em tempos de genocídio, da psiquiatra palestina Samah Jabr, e Diários de Gaza, publicadas pela Tabla. É colunista do Mídia NINJA e do Le Monde Diplomatique Brasil, onde escreve sobre migração, saúde mental, direitos humanos e Oriente Médio.



aula 02 - 5 de julho

Corpos em fronteira: gênero, migração e colonialidade.

Com: Suzana Duarte Santos Mallard Psicanalista e psicóloga


A migração nunca é apenas deslocamento geográfico. Corpos que atravessam fronteiras chegam marcados, pela raça, pelo gênero, pela colonialidade, pela violência de percurso. São corpos que as sociedades de destino já sabem classificar antes mesmo de ouvir: quem pode trabalhar, quem pode ser desejado, quem pode ser descartado.


Esta aula propõe parar diante dessa classificação e perguntar: o que ela faz com a subjetividade?


Frantz Fanon descreveu com precisão o momento em que esse processo se instala. No capítulo sobre a experiência vivida do negro, ele narra como o corpo racializado é capturado pelo olhar do outro e reduzido a objeto, fixado, antes de poder se mover, numa identidade que não escolheu. O sujeito não chega e depois é racializado: ele é racializado no momento mesmo em que aparece. É esse mecanismo, a produção do corpo como superfície de inscrição colonial, que interessa pensar em relação à migração: o corpo migrante é lido, classificado e hierarquizado antes de ter a chance de se apresentar.

Mas nem todos os corpos são lidos da mesma maneira. É aqui que María Lugones aprofunda e complica o argumento. Para ela, a colonialidade não se refere apenas à classificação racial, ela atravessa simultaneamente o controle do sexo, da subjetividade, do trabalho e da autoridade coletiva. Corpos trans, negros, indígenas, femininos não vivem a mesma migração porque a colonialidade diferencia, hierarquiza e violenta de formas específicas. A categoria universal "migrante" apaga exatamente o que importa: a trama concreta de raça, gênero e sexualidade que determina o que cada corpo pode ou não pode ser.


O giro clínico da aula parte daí. Se o sofrimento psíquico migrante é produzido nessa interseção e não apenas pelo deslocamento geográfico em si, então a escuta precisa ser capaz de habitá-la. O que acontece quando o corpo que chega ao consultório carrega uma história que a psicanálise clássica não aprendeu a nomear? Entre o luto das origens, a invisibilização e as formas cotidianas de violência simbólica, existe também resistência, e é nela que a escuta precisa ancorar-se.


Mini bio

Suzana Duarte Santos Mallard é psicanalista, psicóloga e doutora em Psicossociologia, com trajetória voltada às intersecções entre migração, raça, colonialidade, afrofeminismo e saúde mental. Atua há duas décadas em contextos clínicos e humanitários ligados ao sofrimento psíquico, deslocamento e violência estrutural. Licensed Clinical Counselor nos EUA (MN), desenvolve pesquisas e práticas voltadas às experiências diaspóricas, aos processos de racialização e às formas contemporâneas de exclusão e pertencimento. É cofundadora do Instituto Diáspora em Diálogo, consultora em Equidade Cultural e Impacto Social, e professora convidada em espaços de formação sobre migração, subjetividade e clínica transcultural. Seu trabalho articula psicanálise, pensamento decolonial e práticas clínicas em contextos de deslocamento e racialização.



aula 03 - 11 de julho

Escuta Decolonial: Entre Silêncios, Resistências e Transformações

Com: Mariana Bassoi Duarte


Quem tem direito ao mundo?


Escutar migrantes e refugiados não é apenas escutar histórias individuais. É escutar as cicatrizes da história inscritas em corpos que foram obrigados a atravessar o mundo para sobreviver.”


Decolonizar a escuta: Acolhimento, Transformação e Reciprocidade no Trabalho com migrantes e refugiados propõe refletir sobre práticas de escuta que rompem com estruturas coloniais de poder, hierarquia e silenciamento. A escuta decolonial não é apenas um instrumento técnico, mas uma prática relacional que transforma tanto quem é ouvido quanto quem escuta.


A aula propõe desconstruir a ideia de escuta como ato passivo. A escuta descolonial reconhece narrativas historicamente marginalizadas, questionando quem tem o direito de falar, em que contextos e quem detém poder de interpretação. Exploramos como sistemas coloniais produziram silenciamentos específicos nas experiências de refugiados—apagando traumas, contextos políticos e resistências.


Quem escuta decolonialmente também é transformado. Este módulo salienta a reciprocidade: como as narrativas de migrantes e refugiados desafiam nossas certezas, expandem nossas compreensões de direitos humanos, políticas globais e resistência? Como a escuta nos implica politicamente? Refletimos sobre o incômodo produtivo, a responsabilidade ética e o engajamento autêntico.



Mini bio

Psicóloga Clínica. Doutora em Psicologia Clínica pelo ISPA – Instituto Universitário de Lisboa, com mestrados em Psicologia Clínica/ UFPR e Psychossocial Studies/ Birkbeck University of London. Psicanalista Membro da BFC - Biblioteca Freudiana de Curitiba. Referente Internacional de Saúde Mental na MSF – Médicos Sem Fronteiras - França, colaborando com projetos de saúde mental em emergências, desastres e conflitos em mais de 20 países. Com vasta experiência internacional, foi referente de saúde mental no Oriente Médio - MSF, coordenando ações nos Territórios Palestinos Ocupados, Síria, Iêmen, Iraque, Jordânia e outros. Coordenadora e Professora da Pós-Graduação em Psicologia e Migração na PUC Minas Gerais. Co-Fundadora do Instituto Diáspora em Diálogo, oferecendo consultoria a diferentes organizações internacionais, atendimento clínico e supervisão em psicanálise.




aula 04 - 12 de julho

Paz com a Terra: a crise dos nossos tempos e o deslocamento forçado ambiental

Com: Bruna Kadletz, diretora da Círculos de Hospitalidade.


Resumo:

A aula propõe uma reflexão crítica sobre as conexões entre crise climática, degradação ambiental e deslocamento forçado, analisando como desastres, desigualdades sociais e modelos de desenvolvimento impactam populações vulnerabilizadas. A partir de exemplos brasileiros e debates internacionais, o curso aborda justiça climática, migração ambiental e os desafios éticos, políticos e humanos da crise dos nossos tempos.


Objetivo:

Compreender as conexões entre degradação ambiental, crise climática e deslocamento forçado, analisando como os atuais modelos de desenvolvimento e as desigualdades socioambientais intensificam vulnerabilidades humanas, produzem deslocamentos internos e internacionais e desafiam os sistemas de proteção de direitos humanos e justiça climática.


Temas:

  1. Crise climática e degradação ambiental
  2. Deslocamento forçado ambiental e climático
  3. Migração climática e limites da categoria “refugiado climático”
  4. Justiça climática e desigualdades socioambientais
  5. Ética do cuidado, sustentabilidade e “paz com a Terra”


Debates possíveis:

  1. Crise climática: fenômeno ambiental ou crise civilizatória?
  2. Tipologias do deslocamento forçado ambiental
  3. Quem mais sofre os impactos da crise climática?
  4. Caminhos para a justiça climática


Questão central:

Como a crise climática, associada aos modelos de exploração ambiental e às desigualdades sociais, tem provocado deslocamentos forçados e ampliado vulnerabilidades humanas, especialmente entre populações historicamente marginalizadas?



Mini bio

Bruna Kadletz é facilitadora, escritora e ativista humanitária, com Mestrado em Sociologia e Mudanças Globais pela Universidade de Edimburgo, Escócia, com foco em deslocamento forçado e mudanças climáticas. Fundadora e diretora da Círculos de Hospitalidade, coordena projetos de proteção e integração de pessoas refugiadas e migrantes, tendo apoiado mais de 24 mil pessoas de 84 nacionalidades em parceria com agências da ONU, poder público e organizações internacionais. Atuou junto a comunidades refugiadas em países como Líbano, Jordânia, Turquia e Sérvia. É docente da disciplina de Crise Climática, Degradação Ambiental e Deslocamento Forçado na pós-graduação em Psicologia e Migração da PUC Minas e associada ao St. Ethelburga's Centre for Reconciliation and Peace, em Londres. É autora dos livros Minha terra mora em mim e Hospitalidade, não Hostilidade.



INFORMAÇÕES:

Datas: 04/07 + 05/07 + 11/07 + 12/07, das 10h às 12h


Valores conscientes, você paga o quanto pode no momento!

Opção 01 - Mínimo: R$80

Opção 02 - Intermediario: R$115

Opção 03 - Ideal: R$150


BOLSA INTEGRAL/PARCIAL: se você quer fazer este curso mas não dispõe de recursos financeiros no momento, mande a sua solicitação de bolsa através do seguinte formulário: https://docs.google.com/forms/d/1PgC3ZiV1l3Xba7KJ_0z8rSakIdkPLdLT5E2AMDs0Ksg/preview


Curso online e ao vivo, via plataforma Zoom

Todas as aulas são gravadas e disponibilizadas para quem estiver inscrite (vídeo disponível no drive por um mês após a realização do curso)

Emissão de certificado de participação para quem assistir às aulas ao vivo.


Classificação indicativa: 18 anos

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Sobre o produtor

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BRAVA

Um espaço de construção de comunidades a partir do compartilhamento de conhecimentos e à produção de saberes contra-hegemônicos. Os caminhos desenhados pela Brava passam por cursos, oficinas, aulões, rodas de conversa e outras iniciativas educacionais, centradas em discussões sobre raça, classe, sexualidade, gênero, colonialidade e pela formação de um pensamento crítico no geral, idealizadas e facilitadas por sujeites que moldam suas vozes a partir do enfrentamento à esses sistemas.

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