LÉA GARCIA E LUANA XAVIER EM “MÃE BAIANA“
Com texto criado a partir das escutas da filósofa Helena Theodoro, a peça fala sobre relações e perdas, por meio de memórias preservadas pela oralidade
“Quando as pessoas são lembradas, elas não morrem”, falou a filósofa Helena Theodoro nas conversas com as autoras Thaís Pontes e Renata Andrade, que escreveram a dramaturgia de “Mãe baiana”, peça estrelada pela dama do teatro negro brasileiro Léa Garcia e pela atriz e apresentadora de TV Luana
Xavier. No palco, elas vivem avó e neta. Com direção de Luiz Antonio Pilar, o espetáculo estreia dia 26 de novembro, na plataforma digital do Sympla.
O texto – que integra a trilogia “Matriarcas” ao lado de “Mãe de santo” e “Mãe preta” – parte do luto, da perda de um filho, fato que Helena Theodoro viveu,
quando seu filho de quatro anos morreu afogado. Apesar desse ponto de partida, as autoras preocuparam-se em não pesar o espetáculo, até porque a
personagem da avó – assim como Helena – sofre, mas entende a morte. No início, a neta não compreende, mas vai passando a entender ao longo da peça.
O luto na família é o renascimento da relação entre elas.
“Esse espetáculo é sobre relações – sobre relação de avó e neta, relação com a morte, com a cozinha, com a religião. A gente vai se transformando nos nossos, a gente vai se vendo... Escrever com a Renata foi um doce exercício de memórias, em que fomos lembrando histórias das nossas famílias”, conta Thaís Pontes, que recorda as conversas com a avó durante as madrugadas na cozinha de casa.
Todo o pensamento da filósofa e primeira doutora preta do Brasil Helena Theodoro passa por suas experiências pessoais e afirma o princípio feminino
preto com todas as suas possibilidades de existir, conservar, transformar e melhorar o mundo. Pela importância de Helena e pela oportunidade de
contracenarem juntas, Léa Garcia e Luana Xavier não titubearam em aceitar o convite para viverem avó e neta. Até porque, na vida real, elas são próximas. A avó de Luana, a inesquecível Chica Xavier, sempre foi muito amiga de Léa, e o afeto une as duas famílias há décadas.
“Pra mim, este personagem é importante porque traz uma avó, uma mãe preta, uma mãe baiana não estereotipada, nada submissa. Ela é uma mulher
atual, avançadinha, o que me agrada muito. A personagem tem a consciência de sua existência enquanto mulher, mulher preta, um ser humano que lutou
muito, uma cidadã, uma mulher consciente de sua ancestralidade, de sua vida enquanto mulher preta na sociedade, uma mulher inteira, sem artifícios, uma mãe moderna. E trabalhar com Luana é como trabalhar em família”, empolga-se Léa Garcia.
Luana Xavier também se emociona. “Minha avó falou para eu trabalhar com as pessoas de que ela gostava. Então como recusar atuar ao lado de Léa Garcia? Sem falar que Luiz Antonio Pilar é um ícone para mim desde que sou criança e ouvia falar que ele era o único diretor preto da TV Globo”, conclui a atriz.
O cenário foi feito pela cenógrafa baiana Renata Mota, seguindo o conceito criado por Clivia Cohen para “Mãe de santo”, o primeiro espetáculo da trilogia
“Matriarcas”. Os objetos de “Mãe de santo” são reorganizados em cena, e novos elementos chegam para compor os dois ambientes – sala e cozinha –,
em que avó e neta conversam quando voltam do velório do neto. Além dos ambientes, o cenário é composto por uma instalação com mais de 70
turbantes, representando toda ancestralidade. O cenário foi confeccionado diversas artesãs e aderecistas do Rio de Janeiro, com técnicas de crochê,
estamparia, macramê, entre outras. Já a direção de Luiz Antonio Pilar – que tem experiência em várias linguagens: teatro, TV e cinema – respeita muito o texto que Thaís Pontes e Renata Andrade escreveram a partir de escutas de Helena Theodoro.
“A minha concepção nasce do que o texto me propõe, e tento respeitá-lo ao máximo. O autor tem um lugar sagrado pra mim”, explica Pilar.
Ficha técnica
Argumento: Helena Theodoro
Texto: Thaís Pontes e Renata Andrade
Atuação: Lea Garcia e Luana Xavier
Direção: Luiz Antônio Pilar
Assistência de direção: Vilma Melo
Figurino: Tereza Nabuco
Cenário: Renata Motta
Trilha sonora: Wladimir Pinheiro
Iluminação: Anderson Ratto
Programação visual: Patrícia Clarkson
Idealização: Vilma Melo e Bruno Mariozz
Realização: Palavra Z Produções Culturais