Um texto não nasce de um ambiente estéril, oco e higienizado, ele é fruto de uma verdadeira “sopa cultural” e do diálogo, direto ou indireto, com uma rede de autores, colegas, amigos e desafetos. Por isso, é fundamental conhecer a história de quem escreve, seja por meio de diários, cartas ou outros documentos, para compreender o contexto pessoal e científico que inevitavelmente atravessa a obra. Antes de estudar um conceito, é preciso situá-lo na trama histórica que permitiu seu surgimento.
Tomemos como exemplo a noção de narcisismo formulada por Freud em 1914. Muito antes dele, já havia discussões sobre o tema entre sexologistas do século XIX, como Havelock Ellis, Paul Näcke e Alfred Binet. O mérito da psicanálise talvez tenha sido deslocar a compreensão do narcisismo de um registro exclusivamente patológico para outra perspectiva. Esse movimento ocorreu, também, porque Jung, então considerado o herdeiro da teoria psicanalítica, apontou que a primeira teoria freudiana do conflito pulsional era insuficiente para explicar fenômenos psicóticos. Além das diversas discussões sobre o narcisismo que foram tema das reuniões de quartas-feiras, o famoso encontro entre o clube do bolinha da psicanálise, em que vários psicanalistas e interessados discutiam teoria e fumavam charuto. Esses fatores levaram Freud, em 1911, no caso Schreber e em Totem e Tabu, a conceber o narcisismo como um movimento natural do psiquismo infantil.
O rompimento com Jung resultou em um dos textos mais densos e complexos de Freud, conhecido por condensar conceitos novos e inaugurar uma reformulação teórica, tudo isso permeado pelo ressentimento em relação ao psiquiatra que recusara o primado da teoria da sexualidade.
Esse exemplo nos lembra que, antes de coroarmos alguém como “gênio”, é preciso reconhecer que se trata de um sujeito histórico, inserido em redes de diálogo, muitas vezes retomando termos e debates já existentes. Nenhuma ideia é totalmente original.
A proposta do aulão é justamente explorar essa perspectiva e introduzir a metodologia histórico-conceitual de Simanke e Caropreso (2019), juntamente com a proposta de Monzani (2015) em "O movimento de um pensamento", para possibilitar uma análise mais completa da teoria.
Indicado para estudantes, psicólogos, psicanalistas e interessados na teoria freudiana, que já tenham alguma leitura dentro da psicanálise.
O aulão será ministrado por Raissa Castro, psicanalista, psicóloga e mestre em psicologia pela linha de História e filosofia da psicologia (UFJF).