20 jan - 2025 • 19:00 > 22 jan - 2025 • 21:00
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SOBRE:
Quem nunca ouviu a famosa frase “isso é homem ou é mulher?” para se referir a qualquer pessoa que desafiasse, em alguma medida, a norma cis-heterossexual? Assim como a gargalhada de um pombagira que enche o salão com a sua liberdade de bruxa-feminina desafiadora das estruturas machistas, a liberdade de gênero incomoda a cisnormatividade que reencena uma certa inquisição diante da presença de pessoas trans* nos terreiros por não suportar uma vida que escapa à binariedade. Porém, Exu já nos ensinou que o nosso ponto de vista é apenas a vista de um ponto, e ainda assim não é capaz de definir, em sua totalidade, a alteridade, como podemos ver no itan a seguir:
Dois homens pretensiosos e arrogantes discutiam em pleno mercado público sobre quem sabia a verdade dos fatos que abalavam a cidade. Exu resolveu então desafiá-los. Combinou que cada qual dos homens ficaria em um extremo do mercado, enquanto ele, Exu, passaria entre eles. E assim o fez. Gingando ao som dos tambores, Exu saracoteou, dançou e pulou, enquanto passava entre os homens arrogantes que se diziam os donos da verdade.
Ocorre que o gorro que Exu usava na cabeça era vermelho de um lado e preto de outro. Como cada homem ficou em um flanco diferente, só pôde ver a cor correspondente do gorro de Exu. O que ficou do lado direito via o gorro preto. O que ficou do lado esquerdo enxergava o gorro vermelho.
Depois de passear entre os homens, Exu os chamou novamente e perguntou:
– Qual era a cor do meu gorro?
O dono da verdade da direita respondeu de pronto: – é preto! Afirmou.
O dono da verdade da esquerda respondeu em seguida: – Não! De certo que é vermelho! Eu bem vi! Disse resoluto.
A discussão entre os donos da verdade foi se tornando cada vez mais acalorada, até que os homens se engalfinharam em uma luta feroz. Os homens que se diziam donos da verdade se rasgaram, se bateram e se mataram, sem que nenhum dos dois convencesse o outro de suas convicções. Cada um estava certo de que sabia a cor do gorro de Exú. Porém, cada um só enxergou o que seus olhos lhe mostraram. Ambos estavam certos. Ambos estavam errados. Exú gargalhou fartamente. Exú é o dono da controvérsia. Laroyê. (JAGUN, Marcio de., 2020, p. 74-75)
O curso “Filhes de exu: gênero na epistemologia da encruzilhada” é uma experiência estética de convite às aparições das dinâmicas de gênero pensadas a partir dos princípios de Exu, entidade essa muito discutida e muito incompreendida, por vezes demonizada, mas que carrega consigo uma potência de transformação vital. Essa investigação que percorre o corpo, a oralidade e a ancestralidade convoca o público a transmutar antigas ideias engessadas a respeito da dissidência de gênero dentro e fora dos terreiros. Nossos encontros serão como giras: em movimentos circulares e com musicalidade. Caminharemos desde os princípios encontrados em Exu Orixá (Bara), seu percurso de sincretismo com o diabo cristão e a sua expressividade manifesta na figura de Exus e Pombagiras nos terreiros brasileiros. Cruzaremos os modos de exu com perspectivas autobiográficas/auto etnográficas trans* como ferramenta para diminuir a incompreensão de fenômenos onde a fronteira de gênero é borrada.
Convidamos todas as pessoas interessadas em viver essa experiência conosco de pensar, ou de louvar Exu, a partir de nossos corpos diversos.
IDEALIZAÇÃO E FACILITAÇÃO
Daniel Brito
Sempre entro em crise quando me pedem uma autodescrição e por isso tento adiar ao máximo essa resposta incômoda, afinal, como se descreve uma pessoa qualquer, que não é qualquer pessoa? Ou, como poder olhar para si mesmo sendo um terceiro? É possível escrever sobre si como se fosse outro? E, se possível, para quem então escrevo, que não para mim? dizer que sou TRANSito, nordestino-carioca, negro-pardo, meio boy, meio viado, macumbeiro, cristão, ora velho, ora novo, ora filósofo, ora poeta de botequim. São só formas de reafirmar que não estou em lugar algum, e, em qualquer lugar ao mesmo tempo. Já ouvi em outro momento que a cura de nossas dores incômodas vinha pela fala, então antes de qualquer sujeits que possam receber uma descrição de mim, me autodescrevo como forma de me olhar na coletividade singular que sou.
Rai do Vale
Artista, de terreiro, pesquisador e trabalha principalmente com fotografia.
Graduande em artes na UFF. Sua pesquisa parte de um diálogo com a imprevisibilidade a partir das sua presença transitória, mergulhando em encontros de diferentes presenças, trabalha com as interdimensionalidades e diálogos interespecíficos dentro das poéticas do encanto, da intimidade e do mistério.
Felipe Gali
Possui graduação em Filosofia pela Universidade Federal Fluminense (2024). Atualmente é membro da Associação Brasileira de Estudos da Trans-homocultura (ABETH), pesquisador do Instituto Brasileiro de Transmasculinidades no Observatório Anderson Herzer (OAH), e mestrando em Filosofia na Universidade Federal Fluminense, na linha de Estética e Filosofia da Arte. Com investigações que se aproximam das filosofias de terreiro, tem desenvolvido a pesquisa “Liminaridade metá-metá” que recorre aos itans caracterizados por experiências de gênero e sexualidade que escapam à lógica binária de gênero moderno-colonial.
INFORMAÇÕES:
Data e horário: 20/01 + 21/01 +22/01 das 19h às 21h
Valores conscientes, você paga o quanto pode no momento!
Opção 01 - Mínimo: R$50
Opção 02 - Intermediario: R$80
Opção 03 - Ideal: R$110
BOLSA INTEGRAL/PARCIAL: se você quer fazer este curso mas não dispõe de recursos financeiros no momento, mande a sua solicitação de bolsa através do seguinte formulário: https://forms.gle/JpAMKSXucXpNBvKq9
Curso online e ao vivo, via plataforma Zoom
Todas as aulas são gravadas e disponibilizadas para quem estiver inscrite (vídeo disponível no drive por um mês após a realização do curso)
Emissão de certificado de participação para quem assistir às aulas ao vivo.
Classificação indicativa: 18 anos
Bibliografia:
Teologia das Encruzilhadas: Feminismo e Mística Decolonial nas Pombagiras de Umbanda (Alexandre cabral); O Exu que habita em mim: Como a filosofia dos Orixás pode te ensinar a descobrir seu potencial para transformar todas as áreas da sua vida (vagner oke); Exu-Mulher e o matriarcado nagô: sobre masculinização, demonização e tensões de gênero na formação dos candomblés (claudia alexandre) ; Afrografias da memória ( leda maria martins) ; performances da oralitura: corpo, lugar da memória (leda martins)
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BRAVA
Um espaço de construção de comunidades a partir do compartilhamento de conhecimentos e à produção de saberes contra-hegemônicos. Os caminhos desenhados pela Brava passam por cursos, oficinas, aulões, rodas de conversa e outras iniciativas educacionais, centradas em discussões sobre raça, classe, sexualidade, gênero, colonialidade e pela formação de um pensamento crítico no geral, idealizadas e facilitadas por sujeites que moldam suas vozes a partir do enfrentamento à esses sistemas.
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