23 jun - 2026 • 19:00 > 23 jun - 2026 • 22:00
23 jun - 2026 • 19:00 > 23 jun - 2026 • 22:00
SOBRE:
Este curso propõe uma imersão breve, mas densa, nas relações entre escrita, subjetividade e resistência a partir de vozes dissidentes do sistema sexo-gênero, com ênfase no contexto latino-americano e brasileiro. Partimos de uma constatação incômoda: no Brasil contemporâneo, corpos historicamente marginalizados têm disputado as narrativas que os atravessam — seja pela queima de estátuas que homenageiam heróis duvidosos, seja pela ocupação das artes, da academia e das redes. Mas essa disputa não é nova. Ela ecoa debates feministas dos anos 1980 que podem parecer, para alguns ouvidos, um démodé, um arquivo empoeirado cuja consulta já não seria necessária. No entanto, é precisamente nessa aparente obsolescência que reside uma potência outra: insistir nessa memória é um ato de resistência contra a violência colonial que nos impõe o esquecimento como condição para o progresso.
Ao longo do encontro, exploramos o que significa, para grupos subalternizados, tomar a escrita como ferramenta "mortalmente séria" — nas palavras de Donna Haraway. A escrita não é um gesto inocente: ela expõe, fixa, arquiva; inscreve corpos em regimes de inteligibilidade que podem tanto ampliar quanto restringir possibilidades de existência. Para sujeitos subalternizados, escrever é sempre arriscar-se à captura — à tradução forçada, à exotização, à assimilação pelas gramáticas dominantes. Mas o risco não é apenas o de ser apropriado; é também o de transformar-se no próprio ato de escrever. Porque a escrita não é superfície onde inscrevemos um self já pronto: ela é abismo, passagem. Quem escreve é também escrito.
Dialogamos com Gloria Anzaldúa e sua noção de fronteira — não como linha que separa, mas como zona de fricção, ferida viva a ser habitada. Em Borderlands/La Frontera, a escrita se revela como território liminar entre línguas que se estranham, epistemologias que se chocam. A língua híbrida, o spanglish, a oscilação entre registros: tudo isso desestabiliza a pretensão colonial de uma linguagem una, soberana. A fronteira não é apenas lugar de violência; é também, e por isso mesmo, laboratório de criação. Lugar onde o novo emerge não apesar do rasgo, mas no próprio rasgo.
Em seguida, aproximamos essa política da fronteira da política ciborgue proposta por Haraway. O ciborgue é o corpo que já nasce da fricção: híbrido, impuro, indisciplinado. Escrever como ciborgue é operar a máquina por dentro — não para consertá-la, mas para que ela gire em falso. A escrita subalterna, quando assume essa dimensão, deixa de aspirar à transparência e passa a operar como interferência. Não como voz que quer entrar no coro, mas como ruído que desorganiza a melodia. Não como mensagem a ser decodificada, mas como frequência que atravessa o sistema e o faz tremer. Porque não se trata apenas de ser ouvido — trata-se de alterar o próprio circuito pelo qual a escuta se organiza.
Passamos então à fabulação especulativa. Haraway nos convoca a "ficar com o problema" — a não fugir do presente, mas a inventar mundos outros dentro dele. A ficção científica, a fantasia científica, o feminismo especulativo tornam-se laboratórios políticos: permitem testar formas de parentesco não consanguíneo, economias que não reproduzem a acumulação infinita, temporalidades que não se organizam pelo progresso linear. Ler e escrever FC é exercitar a imaginação estrutural: em vez de perguntar "quem somos?" como fundamento fixo, perguntar "com quem nos tornamos?" como processo aberto.
Por fim, ancoramos essas discussões em duas escritas trans* latino-americanas: Camila Sosa Villada e Anderson Herzer. Em A viagem inútil, Villada radicaliza a tese de que escrever é disputar o mundo que nos marcou como outras. Antes da transição corporal, houve a textual: nomear-se é existir. Se não há lugar para corpos travestis, escreve-se o lugar; se não há personagem, escreve-se a personagem. A linguagem deixa de representar o mundo e passa a fabricá-lo. Inútil nos termos do capital, a escrita não redime nem repara — mas interrompe o script necropolítico que destina certos corpos ao silêncio e à morte.
No Brasil, Anderson Herzer encontrou na escrita um meio de sobreviver. Adolescente em trânsito entre unidades da FEBEM de São Paulo, fez da palavra abrigo. Escrevia poemas, peças de teatro; seus textos foram considerados os melhores entre os menores confinados. Apesar da morte precoce — incorporada à estatística brutal de corpos transmasculinos suicidados —, Herzer deixou A Queda para o Alto. O título já condensa o paradoxo: cair sob a violência institucional e, ainda assim, deslocar a direção da queda. Como em Villada, escrever não redime nem salva. Mas fabrica arquivo onde havia apenas número; produz memória onde havia silenciamento; deixa, nas entrelinhas, modos de continuar vivendo quando o mundo organiza a morte como destino.
Encerramos retomando a pergunta que nos moveu: como narrar quando as estruturas de inteligibilidade nos produzem como abjetos? A resposta não é única, mas uma aposta: a escrita pode ser prática de worlding — demarcar o mundo que nos demarcou. Entre o perigo da captura e a promessa da metamorfose, escrever é aceitar o risco da inteligibilidade parcial. Tornar-se visível o suficiente para intervir, mas opaco o suficiente para não ser completamente absorvido. E é nesse intervalo — entre o perigo e a invenção — que a escrita se torna prática política.
Programação:
- Disputa narrativa no Brasil – queima de estátuas, ocupação das artes e da academia; por que insistir em feminismos dos anos 1980
- Escrita como ferramenta "mortalmente séria" – Haraway e a aposta na escrita para grupos colonizados; Spivak e o paradoxo do subalterno
- Habitar a fronteira (Anzaldúa) – fronteira como fricção; língua híbrida; escrita visceral e política
- Ruído e política ciborgue (Haraway) – escrever como interferência; opacidade contra a tradução total
- Fabulação especulativa – FC como laboratório político; novas geometrias (redes, teias, cordas); de "quem somos?" para "com quem nos tornamos?"
- Escritas trans latino-americanas* – Villada (trans/escrita como gesto ontológico); Herzer (poesia como insurgência na FEBEM)
IDEALIZAÇÃO E FACILITAÇÃO:
Pol Iryo é um devir. Transita entres os diferentes campos dos saberes e linguagens. Se encanta pelas conexões entre diferentes cosmos, as conexões simpoi/éticas entre seres e as tentativas - quase sempre fracassadas - de tornar material aquilo que é imaterial. Tem uma (de)formação acadêmica: Mestrando em Filosofia (PPGFIL-USP), Bacharel em Ciências e Humanidades (UFABC). Um corpo transmasculino, nipo-descendente, que explora as fronteiras e interpelações que afetam sua vivência entre territórios.
INFORMAÇÕES:
Data e horário: 23/06 das 19h às 22h
Valores conscientes, você paga o quanto pode no momento!
Opção 01 - Mínimo: R$30
Opção 02 - Intermediario: R$50
Opção 03 - Ideal: R$70
BOLSA INTEGRAL/PARCIAL: se você quer fazer este curso mas não dispõe de recursos financeiros no momento, mande a sua solicitação de bolsa através do seguinte formulário: https://forms.gle/4S8z62sTcsdr9tRV9
Curso online e ao vivo, via plataforma Zoom
Todas as aulas são gravadas e disponibilizadas para quem estiver inscrite (vídeo disponível no drive por um mês após a realização do curso)
Emissão de certificado de participação para quem assistir às aulas ao vivo.
Classificação indicativa: 18 anos
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BRAVA
Um espaço de construção de comunidades a partir do compartilhamento de conhecimentos e à produção de saberes contra-hegemônicos. Os caminhos desenhados pela Brava passam por cursos, oficinas, aulões, rodas de conversa e outras iniciativas educacionais, centradas em discussões sobre raça, classe, sexualidade, gênero, colonialidade e pela formação de um pensamento crítico no geral, idealizadas e facilitadas por sujeites que moldam suas vozes a partir do enfrentamento à esses sistemas.
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