20 mai - 2026 • 15:30 > 09 set - 2026 • 19:00
20 mai - 2026 • 15:30 > 09 set - 2026 • 19:00
A noção de “capitalismo quântico” — que orienta o título e o programa deste curso — não deve ser tomada como metáfora gratuita, mas como um conceito crítico destinado a apreender uma mutação estrutural. Assim como a física quântica revelou a instabilidade, a indeterminação e a descontinuidade nos fundamentos da matéria, o capitalismo contemporâneo revela uma instabilidade análoga no plano das relações sociais mediadas pelo valor. O capital, enquanto sujeito automático, torna-se cada vez mais dissociado de suas bases substanciais, isto é, do trabalho vivo, ao mesmo tempo em que amplia sua dominação sobre o conjunto da vida social.
O curso se organiza a partir de três teses fundamentais, que funcionam como eixos de investigação teórica.
A primeira tese sustenta que a crise estrutural do capital se aprofunda nas condições históricas em que a produtividade do trabalho realizou um verdadeiro “salto mortal”, aproximando-se de um limite interno: a plenitude do trabalho abstrato. Este processo exacerba a dialética entre valor e antivalor. Quanto mais o capital desenvolve as forças produtivas — reduzindo o tempo de trabalho necessário —, mais corrói a própria substância do valor, que depende precisamente desse tempo de trabalho. Temos, assim, uma contradição em processo de intensificação: o capital precisa negar aquilo que o constitui.
A segunda tese afirma que esse processo inaugura o que denominamos capitalismo quântico, ou capitalismo do “salto mortal” da produtividade do trabalho. Nesse novo patamar histórico, as determinações “de fundo” do modo de produção capitalista — força de trabalho e capital — são profundamente transtornadas. A força de trabalho torna-se cada vez mais supérflua relativamente à valorização, enquanto o capital se autonomiza sob formas cada vez mais fictícias. Instaura-se, assim, a era do hiperfetichismo: não apenas as relações sociais aparecem como coisas, mas as próprias formas do capital se tornam espectrais, desligadas de qualquer lastro imediato na produção de valor. O domínio do capital fictício — finanças, derivativos, ativos intangíveis — expressa essa autonomização extrema.
A terceira tese radicaliza essa análise ao afirmar que estamos diante de uma “negação” da lei do valor. Não se trata de sua abolição consciente, mas de sua corrosão imanente. A lei do valor continua operando, mas de forma cada vez mais contraditória, instável e “desmedida”. O resultado é um processo de dissolução das determinações estruturais da relação-valor enquanto forma social. O valor não desaparece — ele se hipertrofia, perde medida, torna-se excesso. É nesse sentido que falamos em desmedida do valor: uma expansão sem lastro, que “desmancha” as formas clássicas da economia política.
A partir dessas teses, o curso percorre um conjunto articulado de problemas. Inicialmente, examinamos o capitalismo global como limite histórico da forma-valor, destacando o caráter senil da relação-valor. Em seguida, analisamos o desmonte das determinações estruturais do capital, evidenciando como o próprio processo de valorização conduz à sua crise. A discussão sobre a desmedida do valor e o antivalor permite compreender o surgimento de formas híbridas e os riscos de uma transição civilizacional marcada por instabilidade, barbárie e potencial emancipatório.
A proposta de pensar “aspectos quânticos” da crise — como superposição, entrelaçamento e incerteza — visa captar a coexistência de tendências contraditórias no capitalismo contemporâneo: crescimento e estagnação, valorização e desvalorização, integração e fragmentação. No plano geopolítico, investigamos as novas formas de imperialismo e a centralidade do antivalor. No plano da economia política, introduzimos a ideia de “acídia do capital”: uma espécie de esgotamento histórico do impulso civilizatório burguês, que se manifesta como incapacidade de dar sentido e direção ao desenvolvimento das forças produtivas.
Por fim, o curso se volta para o problema decisivo: as possibilidades da práxis. Se o capital dissolve suas próprias bases, ele também cria as condições objetivas para sua superação. Mas tais possibilidades não se realizam automaticamente. Elas exigem mediação política, organização e consciência — aquilo que Antonio Gramsci chamou de construção de uma vontade coletiva nacional-popular. É nesse terreno que se colocam os anseios de emancipação social.
Objetivos do curso
O objetivo central do curso é oferecer uma interpretação crítica e sistemática das transformações do capitalismo no século XXI, articulando a teoria marxiana do valor com a análise da crise estrutural contemporânea. Busca-se:
Justificativa
A importância deste curso reside na necessidade de compreender um mundo em transformação acelerada, no qual as categorias tradicionais da economia política parecem perder sua capacidade explicativa imediata. A financeirização extrema, a automação, a digitalização e a centralidade dos ativos imateriais não são fenômenos superficiais: eles indicam uma mutação profunda na forma de reprodução do capital.
Sem uma teoria capaz de apreender essas mudanças, corremos o risco de permanecer presos a esquemas analíticos que já não correspondem à realidade histórica. Por outro lado, a ausência de compreensão crítica abre espaço para ideologias que naturalizam a crise ou a interpretam de forma fragmentária.
Este curso se justifica, portanto, como esforço teórico e político: compreender a crise estrutural do capital não é apenas um exercício acadêmico, mas uma condição para pensar a emancipação social no século XXI. Trata-se de retomar, em novas condições históricas, o projeto crítico inaugurado por Marx: não apenas interpretar o mundo, mas transformá-lo.
Módulos e Cronograma de Trabalho
Dia 20 de maio de 2026 - Apresentação Geral
Dia 3 de junho de 2026 -Introdução: As
Teses do Capitalismo Quântico
Dia17 de junho de 2026 - Capitalismo Global
como Limite da Forma-Valor
Dia 1 de julho de 2026 - A Senilidade da Relação-Valor
Dia 15 de julho de 2026 - A negação das
determinações “de fundo” do modo de produção capitalista: Desmontando o Capital
Dia 29 de julho de 2026 - Desmedida do Valor
e Anti-valor: Formas híbridas e riscos da Transição Civilizacional no Século
XXI
Dia 12 de agosto de 2026 – Aspectos
quânticos da Crise estrutural do Capital: superposição, entrelaçamento e
incerteza
Dia 26 de agosto de 2026 – A Geopolítica do
Capitalismo Quântico: Imperialismo e Anti-valor
Dia 9 de setembro de 2026 – A Economia
Política do Capitalismo Quantico: A Acídia do Capital
Dia 9 – Possibilidades da Praxis e Anseios de Emancipação Social – a partir do terreno nacional-popular.
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Giovanni Alves
Giovanni Alves é professor de sociologia da UNESP, coordenador da Rede de Estudos do Trabalho (RET) e do Projeto Tela Crítica (www.telacritica.net) e Projeto CineTrabalho (www.projetocinetrabalho.net).
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