21 mai - 2026 • 19:30 > 21 mai - 2026 • 21:30
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Ciclo de Estudos “Escrita, Feminismos e Psicanálise” – 2026
3ª edição: “ramos da escrita de si: testemunhos de um desconhecimento”
Trazer perguntas sobre as escritas de si parece ao mesmo tempo um movimento ultrapassado e atual. Ultrapassado se pensarmos numa forma tradicional de biografia, onde a vida de quem escreve é a causa do texto; atual se intuímos que o século XX borra os limites entre vida e escrita forjadas numa temporalidade de causa e consequência. Podemos dizer, de forma breve, que alguns acontecimentos do início do século XX trouxeram a perspectiva de que há, nas escritas de si, a possibilidade de escapar daquilo que se sabe em direção ao que não se sabe sobre si. Esse é o princípio do infamiliar na psicanálise freudiana, a noção de que há algo radicalmente estrangeiro naquilo que chamamos de “eu”. Ou, como diz Judith Butler, “o eu, mais do que uma entidade, é uma ruptura”. Começamos o século XXI imersas nessa rachadura e com uma profusão cada vez maior das escritas de si que ganham outros nomes. Biografia, autobiografia, autoficção, autossociobiografia, autobibliografia, são ramos de uma árvore que não para de crescer e, longe de encerrar o gênero em um recipiente, parecem encaminhar as práticas de escrita para outros lugares.
Pensando no que essas práticas suscitam, direcionamos nosso “ciclo de estudos em escrita, feminismos e psicanálise” para percorrer esse caminho das mãos que ao escreverem sobre si desestabilizam o eu que pode, inclusive, ser coletivo. Tendo como ponto de partida a noção de Cristina Rivera-Garza, em Os mortos indóceis, de que uma autobiografia é, antes de tudo, o testemunho de um desconhecimento, e que no século XXI o que está em jogo na prática da escrita de si é uma poética da desapropriação, escolhemos escritoras que colocam perguntas sobre a nossa implicação enquanto leitoras: o que nos é transmitido de inquietação desses textos que pode reverberar para além daquilo que o livro contém?
“Uma autobiografia teria que ser, antes de tudo, o testemunho de um desconhecimento. Uma autobiografia teria que ser sempre uma biografia do outro, tal como aparece, de modo enigmático, em mim”
Para articular possibilidades investigativas, vamos trazer, em cada encontro, três pontos que instigam cada uma de nós, em especial nas leituras de crítica e teorias feministas, psicanálise e tradução. A ideia é que possamos, juntas, ensaiar sobre essas escritas, pensando sobre o que elas ainda farão, como diria Hélène Cixous.
Os encontros são de, em média, 2 (duas) horas, sendo que 1 (uma) hora é de exposição por parte das ministrantes – momento que é gravado e fica disponível por até 30 dias após o término do ciclo – e depois se segue uma conversa, não gravada, entre as pessoas presentes. Por isso, essa é a média dos encontros, sendo possível se estender um pouco.
De abril a outubro de 2026
Total de 6 encontros (com intervalo no mês de julho)
3ª quinta-feira de cada mês
horário: 19h30 às 21h30
R$100 por encontro (cada um com inscrições separadas)

Encontros
Abril: Um esboço do passado, Virginia Woolf, tradução de Ana Carolina Mesquita (Nós, 2020)
16 DE ABRIL
Um dos últimos textos de Virginia Woolf e, também, um dos mais pontuais sobre o seu projeto de escrita. Deixou ele inacabado, como uma ponta que quase executa um fecho, mas que na prática mantém perpetuamente aberto para que possamos elaborar sobre essa obra, assim como é a escrita sobre uma vida. Neste texto, Virginia quer dar conta dos Eus que habitam um texto, incluir o presente no passado e não deixar nada de fora, incluindo os momentos de ser e os de não ser. Nos interessa aqui porque ela vai defender que não existe uma individualidade, uma separação do eu e o mundo. Além de trabalhar com a ideia de que o real não é uma sucessão linear de fatos – como acreditam também as pessoas que desgostam das escritas de si –, mas sim um conjunto de simultaneidades. Como narrar a partir disso?
Maio: Ruínas bem comportadas, Hélène Cixous, tradução de Marcelo Jacques de Moraes (Relicário, 2024)
21 DE MAIO
Este é o primeiro romance de Hélène Cixous traduzido para o português brasileiro e mistura elementos autobiográficos com ficção num texto que desafia a própria definição de romance.. A narradora parte de Osnabruck na Alemanha, cidade onde a mãe de Cixous nasceu, para explorar as ruínas da história coletiva e familiar. O texto discute a representação da violência ao longo do tempo através de marcos históricos da cidade, como o julgamento de bruxas no séc. XVI, perseguições a judeus e prisioneiros no séc. XX, se entrelaçando com histórias de outros tempos e lugares, Argel, a cidade onde Cixous cresceu, o Terceiro Reich Alemão e o colonialismo francês na Argélia.
Junho: Cartas a uma negra, Françoise Ega, tradução de Vinícius Carneiro e Mathilde Moaty (Todavia, 2021)
18 DE JUNHO
Uma carta prevê uma destinatária, mas prevê que a missiva chegue até ela? A escrita em si já não é um ato de endereçamento? Essas perguntas rondam esse livro que é um exercício de diálogo entre duas trabalhadoras da palavra. Françoise Ega, antilhana que chegara há pouco na França no início dos anos 1960, descobre Carolina Maria de Jesus na revista Paris Match e, a partir de então, passa a escrever cartas (sem nunca enviá-las) para aquela escritora tão próxima de sua ideia de escritura. Nos interessa aqui pela construção de um projeto de escrita dialógica de si, seja pelo método ou pelo dispositivo que impulsiona esse ato.
Agosto: Limiares/La Frontera, Gloria Anzaldúa, tradução de Daniel Lühmann, Emanuela Siqueira, Jade Medeiros e Larissa Bontempi (A Bolha, 2026)
20 DE AGOSTO
O texto mitológico de Glória Anzaldúa, onde ela funda – sem reclamar para si qualquer tipo de criação – uma teoria em torno da ideia de fronteira/limiares. O que acontece com os corpos, línguas e afetos de quem vive entre culturas de forma nada apaziguada? A autora parte de sua experiência crescendo na fronteira tejana-mexicana para articular existências outras fora da lógica branca, binária e colonizadora. Nos interessa aqui especialmente pelo projeto de escrita metamórfico, apontando escolhas mestizas no cerne da linguagem. Afinal, aquela que escreve precisa romper com a linguagem hegemônica.
Setembro: Autobiografia do algodão, Cristina Rivera Garza, tradução de Silva Massimini Felix (Autêntica, 2025)
17 DE SETEMBRO
Seguimos entre o México (Tamaulipas) e os Estados Unidos (Texas) para ler juntas esse livro em que Cristina Rivera-Garza torce a forma da autobiografia para contar a história da fronteira habitada por seus antepassados. Caminhando entre a pesquisa de arquivo e a escrita forjada no que chama de poética da desapropriação, ela recria não apenas a história de sua família, mas a maneira como o sistema de cultivo do algodão transformou os corpos, as migrações e as vidas dos trabalhadores na fronteira. Nesse processo, Cristina faz da autobiografia um gesto de escavação e uma escrita da paisagem na qual o “eu” se coletiviza e narra a partir dos testemunhos apagados da história oficial, colhidos não apenas dos documentos, mas das marcas que os corpos deixam na terra.
Outubro: Salvamento: Leituras do naufrágio, Dionne Brand, tradução de floresta (Zahar, 2025)
15 DE OUTUBRO
Adrienne Rich nos diz que “re-visar”, olhar o passado com uma nova mirada, é para as mulheres um ato de sobrevivência. É o que Dionne Brand faz neste livro de ensaios: usa a metáfora do naufrágio para mostrar como os livros que constituíram sua biblioteca são moldados por uma estética onde a violência colonial não é colocada em questão. O imperialismo que permeia romances de Jane Austen, Robinson Crusoé, Thackeray, entre outros, leituras obrigatórias quando ela começa a ter o primeiro contato com a literatura, nunca são alvo de crítica. Pelo contrário, sem isso a literatura europeia e anglo-estadunidense de determinada época parece não se sustentar. Dionne relê esses livros construindo uma autobibliografia que aponta as fissuras do discurso que a levaram a naufragar enquanto sujeito colonial, trazendo a perspectiva de que só é possível se salvar imaginando formas de ler que levam em conta o vestígio deixado pela negritude nesses livros.
Uma parte da bibliografia complementar:
Os mortos indóceis - Cristina Rivera-Garza
Despossessão - Judith Butler
Relatar a si mesmo - Judith Butler
A fantasia da história feminista - Joan Scott
Notas ordinárias - Christina Sharpe
Pensar com as mãos - Marília Garcia
A vida imaterial - Marguerite Duras
Uma mulher singular - Vivian Gornick
A chegada da escrita - Hélène Cixous
Para John - Joan Didion
Memória de menina - Annie Ernaux
Olha-me e narra-me - Cavarero
Vidas Rebeldes, Belos Experimentos – de Saidiya Hartman
Cenas da sujeição: terror, escravidão e criação de si na América do século 19 – Saidiya Hartman
Imagens Imóveis – Janet Malcolm
Um mapa para a porta do não-retorno: notas sobre pertencimento - Dionne Brand
No vestígio: negritude e existência - Christina Sharpe
O contador, a noite e o balaio - Patrick Chamoiseau
Escrever em um país dominado - Patrick Chamoiseau
As ministrantes:
Emanuela Siqueira é tradutora e trabalhadora da palavra em geral. Mestre e doutora em estudos literários pela UFPR, articula os estudos feministas em suas práticas tradutórias, de escrita e nos cursos que ministra.
Tatianne Santos Dantas é psicanalista, ensaísta e pesquisadora. Graduada em Psicologia, fez mestrado em Psicanálise: Clínica e Cultura (UFRGS) e doutorado em Letras (UFS), articulando a obra de Elena Ferrante com a psicanálise, a escrita e o corpo na literatura. É autora do livro “Corpo, escrita e fractal: ensaios com Elena Ferrante” publicado pela Editora Blucher.
Ananda Marques é cientista política, psicanalista em formação, professora e pesquisadora. Doutoranda em Ciência Política na UnB, mestra em Ciência Política pela UFPI e licenciada em Ciências Sociais pela mesma instituição. Pesquisa atualmente sobre políticas públicas, com foco na equidade de gênero e raça na burocracia federal. É Associada em Formação do Corpo Freudiano Escola de Psicanálise - Seção São Luís e é membro do Giro - Coletivo de Psicanálise.
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