Mesmo com as transformações ocorridas no espaço rural devido à modernização, as tradições religiosas manifestadas nos festejos e folias, narrativas e causos, relações de compadrio e teias de relações sociais, ainda são conservadas pelos moradores e visitantes de Mimoso. Sendo assim, elas permanecem e constituem elementos fundamentais para a história e para a identidade da comunidade. A identidade é um conceito que tem sido abordado pelos estudos da literatura e da geografia, principalmente em pesquisas cujo arcabouço teórico e metodológico parte de paradigmas culturais.
Destarte, para a consolidação da Tese, temos como objetivo compreender como se dá a construção das identidades territoriais Kalunga na Comunidade Rural Quilombola Kalunga do Mimoso, por meio das narrativas orais e os seus narradores das geopoesia. Por extensão as festas religiosas, como a Folia de Santos Reis e a Folia de Santo Antônio, no período de 2017 a 2018 tornaram-se o epicentro da coleta e respectiva análise. Essa comunidade está localizada entre os municípios de Arraias e Paranã, no sudeste do estado do Tocantins e compõe parte de remanescentes de quilombos do norte do estado de Goiás. Reafirmando a importância das narrativas orais na história da humanidade é que se enformam os nossos objetivos específicos. Um deles é analisar como a geografia cultural e a geopoesia contribuem para dar visibilidade aos povos quilombolas, como eles se organizam e tem constituído seu território. Outro é mapear o processo de formação histórica e territorial da comunidade e entender suas relações sociais e culturais com a comunidade Kalunga em Goiás. Discutimos também a dinâmica, os aspectos estruturais e simbólicos da Folia de Santos Reis e de Santo Antônio, em relação à ocasião, ao ritual, à memória, à performance, e como essas influenciam na construção das vocalidades e corporalidades. E por fim, analisamos as histórias e os procedimentos dos contadores em relação às ocasiões e à construção narrativa. Buscamos entender o processo de formação das identidades relacionadas ao território onde os sujeitos Kalunga vivem, em diálogo com os pressupostos teóricos da geografia cultural e da geopoesia. Adotamos também alguns questionamentos problematizadores para o desenvolvimento da Tese. Estes relacionados ao processo de formação territorial da comunidade e suas práticas sociais e simbólicas, à contribuição das narrativas e das festas para a construção do território e das identidades em Mimoso, e às implicações que a fronteira geográfica, política e econômica causa entre os Kalunga de Tocantins e de Goiás. De maneira geral, discutimos acerca da escolha do tema e suas implicações. Apresentamos os conceitos
norteadores, os pressupostos teóricos, os percursos epistemológicos da geografia cultural e da literatura popular (geopoesia) e os aportes metodológicos que norteiam a discussão. Historicisamos a condição do negro, a formação das comunidades quilombolas no Brasil e no Tocantins e a trajetória de seus direitos. Trazemos o cenário histórico desse estado e de suas comunidades. Apresentamos dados do IBGE e contextualizamos historicamente a divisão do estado de Goiás, a criação do Tocantins e a separação de uma grande coletividade quilombola. Mostramos, ainda, informações sobre a população, a área territorial, as atividades culturais, econômicas e geográficas desse estado e do município de Arraias e seus ecos na vocalidade dos narradores da geopoesia. A utilização de metodologias qualitativas como: história oral, análise crítica de bibliografia, observação participante, entrevistas, análise do discurso dentre outras, possibilitou análises e reflexões consistentes acerca do tema. Ao longo da Tese apresentamos respostas para os questionamentos apresentados inicialmente. Constatamos a importância do sentimento de pertença e das práticas sociais, para a promoção das identidades territoriais Kalunga. Estas, são baseadas na participação coletiva dos sujeitos no processo de produção do território, que transcendem a perspectiva política e administrativa, e valoriza a apropriação do espaço para a reprodução da vida, do trabalho e da cultura Kalunga.